revoluciomnibus.com  James Anhanguera ERa Uma Vez A RevolUÇÃo. ...I I I     MEDO ATRASO E ROCK NAS BERÇAS  DEPOIS DO ADEUS

Passam-se às vezes dois ou três dias sem ver Ofélia. E nunca se pergunta o que faz depois dos ensaios da nova montagem do Cenário, com outras seis mais ou menos jovens atrizes irrogantes para que fornece subsídios. Pela primeira vez tenta-se montar em Portugal uma peça de Nelson Rodrigues, o polêmico dramaturgo brasileiro, que dá raiva pelo reacionarismo mas que força ao máximo respeito por ser o primeiro grande autor teatral moderno no seu país e pela prosa magnífica das suas crónicas sobre futebol À Sombra das Chuteiras Imortais, que acompanha no jornal O Globo, do Rio de Janeiro, perplexo pelo dualismo do autor e a qualidade do seu texto. Recortes e livros sobre teatro brasileiro e com parte da obra de N.R., comprados no Centro do Livro Brasileiro, entrega-os a Ofélia como material de estudo que, a par com o conteúdo da peça em que está trabalhando, a deixa igualmente aturdida.

Está-se nessa até que na noite de estreia do filme Meus Amigos, de António Cunha Teles, após comes e bebes com pequena e bela companhia, ao atravessarem, uns mais ébrios outros menos, a ponte do comboio da Ave de Roma, a ver se passa um táxi que os leve ao Bolero, caem-lhe a ela os óculos no chão. O filme, num preto e branco bacana, é uma boa merda, porém sem motivos de grande frustração. mas ao ver os óculos quebrados Ofélia quase cai em prantos e num minuto põe Ed a curtir, como se diz no Brasil, o que há de mais cruento no desprezo de Marlene pelo prof. Unrat.

No cabaré homônimo, é levado a sentir-se o próprio, quando ao ensaiar sentar-se à sua mesa ela reage aos berros e com todo o escárnio de que só uma mulher – e uma grande atriz – é capaz:

- Mas o que é que o senhor está a fazer aqui? Vá curtir a sua dor de corno para a sua mesa, seu badamerdas. Aqui comigo, ó, kaputt! Finito! AufWiedersehen! Goodbye, my boy. Rá! Rá! Rá! – olhando para os convivas a dar show e como que a pedir palmas, com ar de troça proibido pelo código Hays.

A menos de três horas de entrar de serviço, pede a primeira das duas sopas alentejanas com que, adicionadas ao conteúdo de duas cafeteiras, procura curar a bebedeira e a tremenda ressaca que já sente, neófito, antes de ir trabalhar. É a primeira vez que sai direto de um cabaré para o trabalho. Balbucia e engana-se mais que a P conta no primeiro noticiário e decide gravar os outros, alegando forte dor de barriga por alguma coisa que comeu e fez-lhe mal, Despertar às sete e meia e uma dose de E depois do adeus. Programa Armando Marques Ferreira e outra dose. Enquanto for bom dia e mais uma dose de E depois do amor e depooois de nós... Na cabeça, além da forte pressão e da dor, um nó de (dar) dó. É a primeira grande ressaca da sua biografia e só sente e vê ruínas, caos latejante na cabeça, a noite infinda.

Dorme a sonhar com a sua cabeça enfiada numa grande cabeça de piranha, a levar pontapés na cara através da abertura da bocarra do bicho desferidos por uma valquíria vestida com trajes sado-masô, talvez porque um dos livros da sua estante que mais lhe chamaram a atenção foi Marat/Sade, de Peter Weiss, como que saída de um trip circense de Fellini e que a ele parece ter a cara de Ofélia e a própria a lhe atirar um par de óculos e a gritar: e o outro paga os desmanchos! Rá! Rá! Rá! - e só acorda na manhã seguinte, à hora de zarpar para o trabalho. E depois do amor e depois de nós... a azucriná-lo a cada período de trabalho pela escuta do Serviço de Noticiários.

25 antes durante depois

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