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Jobiniana Era Uma Vez Uma Cidade Desconc/serto Carioca
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DE CABO A RABO
Breve História (do Uso) das Drogas da Antiguidade a Aldous Huxley seguida de Breve História (do Uso) das Drogas de Aldous Huxley aos nossos dias
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Doca de Vila Cruzeiro,
complexo da Penha, ao lado do complexo do
Alemão, chefe do tráfico dos dois conjuntos
de favelas, é em novembro de 2025 o inimigo
público número 1 e para capturá-lo as forças
de segurança organizam uma operação conjunta
de 4000 homens da Polícia Civil e Militar,
com a colaboração do BOPE, que resultou na
morte de 106 "vagabundos", como são chamados
pelos influencers, e dois policiais.
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que fim levou Uê: morto na penitenciária de segurança máxima Bangu 1 em 2003 por, entre outros, Fernando Beira Mar e Marcinho VP, que herda o Comando do complexo do Alemão, onde o nome da hora é Doca.Com drones (por enquanto só) de observação e capacidade de guerrilha, estima-se que o Comando Vermelho CV fatura 350 milhões de dólares/ano mas não vive só do tráfico de maconha e cocaína, que equivale a um décimo de seu volume de negócios hoje em dia.O CV já expandiu os tentáculos aos Nordeste (Bahia e Ceará) e Amazonas (Manaus).Em
meio século o problema das facções
passou a ser muito maior que o
problema porque passou a ser
praticamente fundamenta do Sistema,
do poder político ao welfare
state e quem deve ou não se
ocupar dele.
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Nordestinos continuam peregrinando para as capitais dos estados ou para o sul em busca de melhores condições de vida, engrossando as populações também flageladas das periferias dos maiores centros habitacionais. Quinta essência do ideário armorial de Ariano Suassuna, os retirantes espalhados pelos quatro cantos construíram o emaranhado de cidades periféricas que reconstituem os burgos num país que tem que passar pela Idade Média que não teve. No Rio de Janeiro, por exemplo, ao contrário da Europa há milênios, muitos dos redutos famélicos estão nos pontos mais elevados, mas é sobretudo nas baixadas periféricas que eles se fixaram aos milhões. Em épocas de maior crise voltam para o sertão. Há muito tido entre os racistas do sul como a escumalha da civilização brasileira – embora os antropólogos o considerem a síntese da raça gerada pela mistura de três povos – o sertanejo nordestino é também, como se não faltasse mais nada, vítima de preconceito e segregacionismo – também por conta do seu baixíssimo nível de instrução.
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PERSONAGENS QUE SE TORNAM CELEBRIDADES DO RIO DE JANEIRO DOS ANOS 1980 A 2020 E ENTRAM E SAEM DOS HOLOFOTES FEITO COMETAS
JB 15-07-1989Chefes escapam da paerseguição na Vila Vintém, em Realengo
Celso Luiz Rodrigues, o Celsinho
seu irmão João Batista Rodrigues, o Zorro ou Batista
Empregada de Castor de Andrade tomava conta das armas
Vila Vintém, território livre da cocaína
principal ponto de descarga da cocaína adquirida por Toninho do Pó em Mato Grosso do Sul
Em seus becos, ruas e biroscas
De simples vapor em pouco tempo Celsinho passou ao comando
Colt morreu em novembro do ano passado - o acusado de mandar assassiná-lo é Celsinho
já respondeu a vários processos por homicídios, tráfico de drogas e roubo de carga. Foi condenado pela primeira vez a menos de um mês a anos por tráfico de drogas
responsável pela maior parte do abastecimento de drogas da Zona Oeste
segundo X-9
esquema inclui desde propinas a policiais e execução dos inimigos
quadrilha mantém escondidas em paióis metralhadoras Uzi israelenses Uru nacionais e escopetas de repetição Frank Spass italianas e Mossberg americanas
supervisor do movimento de drogas
O Globo 02-07-1989
Polícia intensifica caça ao tráfico de drogas e sobe ao menos um morro por dia no Grande Rio
a política das autoridades governamentais e policiais do Rio de Janeiro tem sido a de combater o tráfico onde quer que ele se manifeste. Talvez a maior novidade no combate ao tráfico seja a transformação da Polícia Militar em uma força mais atuante. Os soldados sobem ao menos um morro por dia no Grande Rio.
Os principais pontos de venda de drogas, de acordo com o mapeamento da Polícia
dando a volta
Bangu - Vila Aliança e Favela Cavalo de Aço em Santa Cruz, Sergio Souza Lima o Pitoco
Vicente de Carvalho - Morro do Juramento, controlado por Escadinha, embora preso em Bangu I
Engenho Novo - Morro da Matriz, Paulinho da Matriz
Mangueira - Paulo Roberto Cruz, Beato Salu
São Conrado - Dênis Leandro da Silva, o Dênis, em Bangu I, José Diógenes Filho, o Zé Giorgio, controla a Rocinha e o Vidigal
Tijuca - o maior, Borel, controlado por Isaías da Costa Rodrigues; rodeado pelo Casa Branca, Orlando da Conceição, Mocotó; e Chácara do Céu, Marquinhos - de difícil acesso, fortaleza de Isaías com grande número de armas pesadas - fuzis, granadas e até metralhadoras antiaéreas
Ipanema - Pavão/Pavãozinho e Cantagalo - Antônio José Pereira, o Tomzé
Copacabana - Ladeira do Tabajaras - Jorge Luís Soares da Silva, o Tenório ou Bombeiro
Botafogo - Dona Marta, Zacarias Gonçalves Rosa, o Zaca
Estácio - Morro de São Carlos dividido depois da morte de Golinho entre Adilson Balbino, Fabinho, Nai e Tiguel, irmão de Rogério Lengruber, o Bagulhão, do Comando Vermelho
Bonsucesso - Favela Nova Holanda - Jorge Ferreira de Almeida, o Jorge Negão
Ilha do Governador - Morro do Dendê, Romildo Souza da Costa, o Miltinho
Jacaré - Morro do Jacarezinho, Ednaldo Soares da Silva, o Naldo
Vigário Geral - Romildo Nunes Machado, o Chiquinho Rambo, do CV
Acari - Darci da Silva Filho, o Cy do Acari - o maior distribuidor de cocaína do Rio de Janeiro, com ligações com o Cartel de Medellin, herdou de Toninho Turco, morto pela polícia
Irajá - Nego Deca herdou de Tunicão, morto
Senador Camará - favela Curral das Éguas controlada por Celsinho do Vintém e Conjunto Viegas por Bagulhão e Tiguel
X-9, um alcaguete a serviço da Polícia
JB s/d - 1988/1989
Tráfico cria "cheiródromo"
Surge na Tijuca espaço só para uso de drogas
Orlando César da Conceição, Mocotó, que segundo a polícia domina tráfico no Morro da Casa Branca, inaugurou há cerca de 15 dias uma praça que já ficou conhecida como Cheiródromo no campo de futebol situado quase no alto do morro, com estacionamento
Segundo a polícia Isaías do Borel uniu-se a Cy do Acari e a decisão de não mais enviar dinheiro para os líderes das facções Falange Vermelha e Comando Jacaré nos presídios estaria originando sucessivas trocas de tiros
considerados os maiores traficantes das chamadas bocas de favela
IstoÉ 15-03-1989
Esquadrão do pó
A repressão ao tráfico não justifica as agressões aos direitos individuais cometidas pela "Operação Bandeja"
por revelar lista com nomes de supostos consumidores
O Globo 09-12-1990
Nos morros, a lei do "Comando Vermelho"
Recebendo ordens da cúpula da organização criminosa - detida no Presídio de Segurança Máxima Bangu I -, os "gerentes" desses grupos armados de traficantes, sequestradores e assaltantes de bancos impõem as suas leis à força a 2,5 milhões de moradores dos morros que dominam.
O Globo 9-09-1991
"Reis" do Rio têm organograma para tráfico
Como num feudo medieval as amantes tanto podem ser escolhidas pelo "rei" quanto "vendidas" por seus pais em troca de proteção.
O "rei" do morro conta com o "gerente geral" do branco (cocaína), o gerente geral do preto (maconha), um gerente para cada boca, o estica, que leva a droga de um ponto a outro, o vapozeiro, que vende na hora pequenas quantidades, os soldados, encarregados de defender as bocas, e os olheiros, em sua maioria menores. Um menor contratado para ser fogueteiro - soltar fogos de artifício para avisar sobre a aproximação da polícia ou informar que a droga está em segurança no paiol -
um soldado ganha cerca de três salários mínimos
Cada quadrilha tem em média 80 pessoas. A sucessão de rei, em grande parte dos casos, custa muito sangue
No atacado o quilo da cocaína pura está avalidado, segundo a Polícia Federal, em US$ 5 mil
No varejo, toda cocaína é malhada - misturada com pó de mármore, ácido bórico ou farinha de trigo -
Paióis subterrâneos para armas e drogas
Todos os morros têm muitas armas Uzi (submetralhadoras e fuzis israelenses) Colt AR-15 (fuzis usados pelos americanos na Guerra do Vietnâ) e metralhadoras Lugger.
A Polícia tem poucas Uzi porque a importação legal é muito difícil
Chegou-se a detectar em alguns morros fuzis-metralhadoras AK-47, russos, que a Polícia só conhece de fotos
Os marginais ligados a uma mesma facção mantêm entre eles um acordo tácito sobre troca de informações, empréstimo de drogas, garantia de não-invasão de área e aviso mútuo sobre realização de blitzes.
Comércio é obrigado a fechar as portas, prática que já extrapolou os limites do morro, chegando ao asfalto
Morte de rival é motivo para festa
Em 30 de novembro de 1990, queima de fogos, churrasco e cerveja no Morro do Pavão/Pavãozinho pagos por Wellington Martins da Silva, o Zé Penetra, e Robson Cunha da Silva, o Robson Caveirinha, em comemoração da morte de Antônio José Pereira, o Tomzé, que controlava o morro.
Seu corpo foi encontrado crivado de balas no Morro do Querosene, no Estácio, onde se refugiou após ser expulso do Pavão. Foi morto porque estuprou uma moça no Morro de São Carlos.
Os "exilados" ainda mantêm seu poder
rei deposto muitas vezes continua a ser rei para seus súditos, como os presos na penitenciária de segurança máxima Bangu 1
Rogério Lemgruber, o Bagulhão
Escadinha
Francisco Viriato, o Japonês,
Denir Leandro da Silva, o Dênis da Rocinha
Antônio Rosa da Silva, o Parazinho
Paulo César dos Reis Encina, o Paulo Maluco, irmão de Escadinha
O Globo 8-09-1991
Reis do crime dividem o Rio em feudos
Na estação de Triagem os traficantes da favela do Jacarezinho tiraram as roletas para que os moradores viajassem de graça nos trens.
Diretor de Obras do Município teve arma apontada para sua cabeça em 1987 na Favela de Parada de Lucas
"Senhores feudais" do Rio dominam uma população de 460 mil pessoas
Rocinha: 300 mil moradores (!!! - foi a cifra de habitantes da Rocinha que circulou pela imprensa nacional e internacional durante e depois da Eco 92) - Eraldo
Cantagalo: Fabinho
Divinéia, Mangueira, Andaraí, Acari,
Parada de Lucas - Robertinho
Vigário Geral - Adão
Jacarezinho, Dendê - dividido pelos traficantes Miltinho e Mailson
Doma Marta - Pedrinho da Mata
Cantagalo - Fabinho São Carlos/Mineira - Nai, Fu e Adilson Balbino
Borel - Bill e Tatinha
Pavão/Pavãozinho - Mineiro e Fabinho
Estratégias para fugir de balas perdidas (melhor título seria para evitar...)
"Tribunal" do Borel decepa mão de ladrão de 16 anos
Tráfico é o crime mais rentável hoje
Rio, junto com outras capitais brasileira, ocupa lugar destacado no tráfico internacional, tornando-se sede de pequenos "escritórios" dos carteis do tráfico de drogas como Medellin, Cáli, Camorra marselhesa (?!) e Máfia italiana
segundo Élson Campello, diretor do Departamento Geral de Polícia Especializada (DGPE) diz também que grandes assaltantes de banco se transformaram em traficantes,
Em agosto de 1987 dois integrantes da cúpula da Falange Vermelha, José Carlos Gregório, o Gordo, e Paulo Roberto Moura Lima, o Meio Quilo, anunciaram que a organização ia parar com os assaltos e se dedicar ao controle do movimento de compra e venda de drogas.
Famílias expulsas de seus barracos
Basta que algum traficante do primeiro ou segundo escalão decida morar ali por considerar o ponto estratégico ou apenas por gostar da vista
o barraco derrubado e uma outra casa, mais moderna, construída no lugar
traficantes costumam restringir acesso a moradores de determinadas áreas que consideram de segurança máxima
toda a área é fiscalizada 24 horas por dia
Mangueira dominada perde o carnaval
Diretor da escola contou que os traficantes da área tomaram conta da quadra da escola e grande parte dos frequentadores dos ensaios ia lá a convite dos bandidos, sem pagar ingresso nem cerveja. Ocuparam um camarote, passaram a vender papelotes de cocaína e trouxinhas de maconha nos banheiros e a passear fortemente armados pela quadra. Chegaram a impedir que a diretoria da escola contratasse segurança.
no último carnaval ficou em 12 lugar por pouco não descendo para o Grupo I
Assistencialismo, traço comum a traficantes e bicheiros
A diferença é que o traficante atende às necessidades básicas da população da sua área, dando remédio, comida, roupas. presentes, pagando cpontas em troca de apoio e principalmente de esconderijos durante operações policiais. O banqueiro não precisa desse tipo de apoio porque o jogo do bicho é tolerado pelas autoridades
Banqueiro dá gratificação, gordas gorjetas e aplica parte do dinheiro na construção de creches e escolas como é o caso de Aniz Abrahão David, o Anísio, em Nilópolis, e Waldemir Garcia, o Miro, em suas fazendas.
Traficante prefere dar presentes esporádicos em vez de manter escolas ou creches - até porque precisa que as crianças fiquem desocupadas para que reforcem seu exército de olheiros.
nove
mandamentos da lei do morro
Não delatar
Não ver
Não ouvir
Avisar sobre qualquer movimento estranho
Ceder a casa ou dar abrigo
Fazer comida para a quadrilha
Não pedir explicações
Colocar as crianças nas ruas durante as operações policiais
Sempre
prestar socorro
O Globo 16-02-1992
A República do Pó
Zuenir Ventura
reportagem de dois repórteres
Dirigido pelo Comando Vermelho e por outra facções, ou falanges, nos últimos seis meses o tráfico exterminou 13 líderes comunitários que resistiram à sua tirania.
Organizado como a Máfia, a Camorra e o Cartel de Medellín - com os quais mantém conexões -
Além do braço armado - que importa clandestinamente metralhadoras israelenses ou fuzis soviéticos, rifles com mira laser e infravermelho - a organização tem um judiciário, com tribunais como o do Borel e Parada de Lucas, (...) um esquema de marketing, que fabrica camisetas, bonés e plásticos com a grife CV, uma previdência social, que dá assistência a famílias de bandidos presos ou mortos, um sistema financeiro, que distribui franchising, cuida da produção, distribuição e do consumo do produto, promovendo inclusive a lavagem de dinheiro e se prepara para ter um legislativo com candidatos próprios.
alta direção CV encarcerada no presídio de segurança máxima Bangu I
O PODER POLÍTICO
assaltante de bancos William da Silva Lima, o Professor ou Sargento William - fundador do Comando Vermelho e companheiro de cela, na Ilha Grande, de jovens militantes da luta armada nos anos 70, com quem aprendeu alguns rudimentos políticos e que o crime precisava se organizar.
autor do livro Quatrocentos contra um - Uma História do Comando Vermelho
também em Bangu I
depoimento de 1991, logo depois de preso, deu longo depoimento a um detetive:
- Vocês, da polícia, botaram o nome de nosso grupo de Falange Vermelha. Achamos por demais de direita. Falange nos faz lembrar a Espanha de Franco, o fascista. Por isso achamos mais adequado Comando Vermelho, que passamos a usar.
O dia em que o morro desceu
O primeiro apoio ostensivo de uma associação de moradores ao tráfico ocorreu em 1987, quando a população da Rocinha desceu o morro para fechar a autoestrada Lagoa-Barra em protesto contra a prisão de Denir Leandro da Silva, o Dênis.
no decorrer das negociações para a libertação do publicitário Roberto Medina, sequestrado em junho de 1990, a deputada Ana Maria Rattes (PSDB-RJ) procurou o traficante Francisco Viriato de Oliveira, o Japonês, em Bangu I para pedir a redução do resgate pedido, que baixou de US$ 5 milhões para 2,5 milhões.
O PODER MILITAR
o sofisticado arsenal dos traficantes
O sofisticado armamento usado pelos traficantes é bem superior ao das polícias Civil e Militar
tem armas automáticas de precisão e forte impacto compradas em Miami, nos Estados Unidos, e em Pedro Luís Cabballero, no Paraguai
fuzil Kalashinikov, modelo AK 47, calibre 223, com carregadores de 20 e 40 tiros, usado pelos iraquianos na Guerra do Golfo, custa no Rio de US$ 8 a US$ 10 mil
Colt AR 15, Remington e Rugger, de fabricação norte-americana, calibre 223
metralhadoras Pistol-Uzi e Uzi-Carbini, israelenses
Intratec 9mm, norte-americana
Uru 9mm, nacional
pistolas Colt 45, Beretta 9mm e Smith 9mm
revólveres Magnun e Rugger 357, norte-americanos
também granadas, lança-bombas e vários tipos de mira, com raios infravermelhos ou com laser
O arsenal da DRE, com 180 homens, inclui armas apreendidas aos bandidos usadas com autorização judicial, como os fuzis AR-15
arsenal composto de 25 metralhadoras alemãs HK/MP-5 e Walter PPK, 9mm
15 metralhadoras Taurus MT-12, 9mm
15 escopetas Winchester 12mm e CBC
pistolas Colt 45 e Taurus, 9mm
revóveres Taurus 38mm
Traficantes controlam até a luz
em algumas favelas mesa de interruptores para controlar a iluminação, interrompendo o fornecimento na área em que se encontra o inimigo
A topografia das favelas favorece a ação dos traficantes: encostas, barracos e casas de alvenaria construídos irregularmente entre becos e vielas são esconderijos quase inacessíveis.
JB 27-06-1993
Troca de chefes leva os traficantes à guerra
Comando Vermelho, responsável pelo controle de 70% da venda de entorpecentes no estado
inimigo a ser derrotado, Terceiro Comando
O traficante José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, foi eleito o líder do Comando Vermelho, nu lugar de Francisco Viriato de Oliveira, o Japonês
Eraldo Souza da Silva, que até domingo controlava o tráfico da Rocinha, delatou planos de fuga e esconderijos de armas na penitenciária Bangu I, caiu em desgraça, foi condenado à morte, e segundo policiais do Serviço Reservado da PM é o mais novo integrante do Terceiro Comando.
Eraldo aliou-se a Djavan, do Morro do Vidigal, e Lamartine Antônio da Silva, o Aranha, para continuar controlando seu reduto - e Rocinha dividida em duas trincheiras. Na parte alta, 50 homens com 25 metralhadoras AR-15 comandados por Jorge Matuto tentam desalojá-lo.
Em 16 morros, Terceiro Comando controla dois e disputa com CV em outra meia-dúzia
Morro Dona Marta foi palco de uma das mais violentas operações policiais em 1988
CV fatura US$ 87 milhões por ano com venda de maconha e cocaína
Terceiro é grande rival
O Terceiro Comando foi criado no início dos anos 80, a partir da liderança de Jorge Zambi, o Pianinho, que controlava várias bocas-de-fumo na Zona Oeste.
O maior líder da organização é Robertinho de Lucas
Pianinho, preso, ainda comanda
Em agosto passado, os traficantes passaram várias semanas se enfrentando em favelas e morrros e a Polícia Civil estimou que pelo menos 100 pessoas morreram nos tiroteios
JB 26-6-1993
Nélson da Silva, o Bill do Borel, controla 250 homens entre aviões, olheiros, seguranças, gerentes e matadores
Sandro Caneto Canígio, de 19 anos, líder da quadrilha que há uma semana invadiu o Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, para assumir o controle do tráfico no local, que era do Terceiro Comando, foi preso praticamente por acaso por ter assaltado um apartamento na Barra da Tijuca.
Contou à polícia que para invadir o Morro dos Prazeres contratou pistoleiros nos Morros do Zinco e da Mineira, no Catumbi, e alugou armas nos Morros do Borel e Mangueira
JB 17-01-1993
Asfalto começa a respeitar a lei do traficante
o crime organizado, aquartelado nas comunidades pobres como as cidadelas da Idade Média
A mais rigorosa lei do morro imposta ao asfalto pelos traficantes - a de que o acesso às favelas cariocas só pode ser feito após autorização do crime organizado - ganhou eficácia de forma legal. (...) empresas como a Light e a Comlurb estão neogicando com o poder paralelo o direito de ir e vir de seus funcionários através de associações de moradores que agem como intermediárias do acordo.
No fim de 92 traficantes armados no Morro do Borel proibiram favelados de participar na inauguração pelo governador Marcello Alencar de um Ciep com visão privilegiada da boca-de-fumo.
O muro da concórdia
Preocupado em preservar o meio ambiente um advogado liderou há cinco anos a construção de um muro de 400 metros que conseguiu também evitar a expansão da Favela da Rocinha pela encosta do Morro Dois Irmãos, na face do Alto da Gávea, com a permissão dos traficantes da Rocinha.
Se a classe média vizinha aos morros conta hoje com a segurança imposta pelo tráfico - que quer a polícia longe da área e por isso proíbe furtos e assaltos nas ruas próximas - por outro lado o preço é alto, nomeadamente desvalorização dos imóveis.
FSP 2-05-1994
Exército adolescente detém morros do Rio
Foram assassinados no Rio em 93 656 menores com idades entre 0 e 17 anos
destes menores 72% tinham entre 15 e 17 anos
O CV e o TC, principais facções do crime organizado no Rio, viraram uma espécie de exército teen. A maioria dos líderes do tráfico ainda está na adolescência ou saíram dela há pouco
As organizações são formadas por garotos que se envolvem com o crime entre 7 e 12 anos de idade e que na maioria das vezes terminam a carreira mortos, ainda na adolescência.
O Terceiro Comando é uma dissidência da Falange Vermelha e da Falange Jacaré no presídio Lemos Brito, no Rio.
A HIERARQUIA DO TRÁFICO
DONO
DO MORRO
GERENTE GERAL RESPONSÁVEL PELAS ARMAS
GERENTE DO BRANCO GERENTE DO PRETO
AVIÃO SOLDADO VAPOR
FOGUETEIRO VIGIA OU OLHEIRO

FOGUETEIRO VIGIA OU OLHEIRO
FOGUETEIRO
OU "PIPEIRO"
SOLTAR PIPA (PAPAGAIO) EM TÁTICA DE
GUERRILHA NÃO É BRINCADEIRA.
VIGIA SOLTA PIPA PARA ANUNCIAR
PRESENÇA DE "ALEMÃO"
EM SAMPA
JB 23-02-1992
São Paulo: Segurança na favela usa pipas e vôlei
Pipas servem para orientar os responsáveis pela boca e a clientela. Se foram brancas significam limpeza total, não há sinal de polícia pelas redondezas. As vrdes indicam que a situação tá encardida, é preciso tomar cuidado. As vermelhas e pretas acionam o alarme geral, é a senha para cair fora. As redes de vôlei servem para retardar a passagem da polícia e dar tempo para a limpeza da área.
Feitiço da Vila Veja 7-12-94
Santa (Dona) Marta: fincada há 52 anos na rocha nua da encosta do Corcovado, debruça-se quase a pino sobre os jardins da prefeituraO Globo 20-10-1995
Traficantes cercam até os palácios
Os traficantes estão ditando as regras até mesmo nos palácios dos governos municipal e estadual. Para construir um muro de separação do terreno do Palácio da Cidade do Motto Dona Marta a Prefeitura está tendo de fazer concessões conforme relatório da Guarda Municipal entregue ao prefeito César Maia.
ontem as obras voltaram a ser interrompidas devido a um tiroteio entre policiais e bandidos no morro
JB 20-10-1995
Tráfico ameaça sedes do poder
Em novo ataque à política de segurança do governador Marcello Alencar, o prefeito César Maia garantiu que o poder dos traficantes já ameaça os dois principais símbolos do poder do estado
"Isso é mais um factóide do prefeito", provocou Marcello
Palácio da Cidade - onde meses atrás a primeira-dama municipal Mariangeles Maia teve de interromper o desfile de moda promovido pela Prefeitura por causa do som ameaçador de um tiroteio que acontecia na favela.
construção do muro foi obrigado a rever o traçado original por ordem dos bandidos. Os traficantes depois exigiram que a mão-de-obra empregada na construção fosse arregimentada na favela.
Dona Marta [- cronologia da violência]
Em agosto de 87 houve a primeira guerra entre traficantes de grandes proporções. O confronto entre as quadrilhas de Emilson dos Santos Fumero, o Cabeludo, e Zacarias Gonçalves Rosa Neto, o Zaca
A comunidade enfrenta também problemas básicos de infraestrutura, como ruas sem calçamento, esgoto a céu aberto, falta de escolas e lixo sem coleta.
Ernaldo Pinto Medeiros, o "Uê", chefe do tráfico nos morros do Juramento e do Adeus, na Zona Norte.
Uê
agora tem sob seu domínio toda a zona da
Baía de Guanabara, estratégica para o
contrabando de armas e drogas.
Uê
sempre foi implacável com seus inimigos e no
mundo marginal tem a fama de alemão (traidor)
O Globo 28-05-1996
Uê é condenado a 17 anos por formação de quadrilha e tráfico de drogas
Bandido do Morro do Alemão responde a outros dez processos por formação de quadrilha, tráfico de drogas e homicídios
Marcinho
VP - Liderança no morro Dona Marta
herdada do tio
1996
Márcio Nepomuceno - Venceu "Uê" na guerra de Nova Brasília, em Bonsucesso
outro Marcinho VP, é da mesma geração dos que assumiram os pontos de venda de drogas no Complexo do Alemão no início dos anos 1990, sucedendo o traficante Orlando da Conceição, o Orlando Jogador, que controlava quase toda a área, morto em 1993 por Ernaldo Pinto de Medeiros, o "Uê". Marcinho enfrentou Uê e garantiu Nova Brasília. Já foi preso mas subornou os policiais.
Pagou R$ 150 mil pela liberdade
o
Parran, chefe da segurança do
bicheiro Castor de Andrade e gerente do
tráfico em Vila Vintém, Acari e Vila
Kennedy.
38 anos, conhecido como Miltinho do Dendê ou Mais Velho no Morro do Dendê, Ilha do Governador, há muito é considerado o maior fornecedor de armas contrabandeadas do Rio.
começou no crime há 13 anos vendendo drogas, especializou-se no negócio de armas pelo privilégio geográfico da área que ocupa, próxima ao aeroporto do Galeão e à beira da Baía de Guanabara.
muitos policias creditam sua longa vida (a média de idade dos traficantes é de 25 anos) à sua conduta discreta
O Globo 26-03-1996
BANDIDOS NA CADEIA: Policia do Rio prende em Sergipe Robertinho de Lucas, que atuava nas Zonas Norte e Oeste
Mais um violento golpe no tráfico
Traficante saía para correr na praia a e foi detido. Ele era o inimigo público número 1 dos policiais
Na extensa folha criminal de Robertinho de Lucas um dado chama a atenção pela frieza e crueldade: em janeiro de 1990 o conhecido marginal mandou eliminar 14 pessoas em menos de 48 horas acusadas de terem roubado grande quantidade de cocaína do traficante. Guto, um sobrinho de Robertinho e que teria chefiado o grupo, teve a cabeça dilacerada com um tiro de escopeta.
começou a sua trajetória criminal como distribuidor de armas de traficantes. Trabalhava em parceria com Miltinho do Dendê.
Em oito dias, três bandidos foram capturados na região, Jorge de Acari e Uê
Chefões presos em Bangu I
Escadinha - Falange vermelha, que deu origem ao Comando Vermelho. Ficou famoso em 1985, ao conseguir fugir de helicóptero do Presídio Candido Mendes, em Ilha Grande
Uê - chefe do tráfico no Complexo do Alemão
Miltinho do Dendê - preso em 1995
Bill herdeiro de Isaías do Borel
baleou nas mãos jovens da favela que assaltavam önibus na Praça Saens Peña. preso em junho de 1993
Celsinho da Vila Vintém - capturado em janeiro próximo à quadra da Mocidade Independente
Cy do Acari - preso em setembro de 1989 e é um dos chefes do Terceiro Comando
Dênis - preso em Florianópolis em junho de 1987.
JB 01-03-1993
Traficantes da Tijuca vão ser presos
Quem comanda o tráfico nos morros
Casa Branca, TC
do Chacrinha, TC
Turano, CV
Formiga, TC
Borel, CV
Salgueiro, CV
perto: Andaraí e Encontro, no Grajaú
IstoÉ 31-08-1994
Aqui vacilou, dançou
Omissão do Estado permite que o narcotráfico monte seu Estado paralelo em um complexo de dez favelas. O governo do Alemão é formado por Celino, Nem Maluco e Carlinhos
Ali não há assaltos nem roubos nem estupros. São crimes que ninguém se arrisca a cometer porque sabe que será condenado à morte.
os 190 mil habitantes das dez favelas do Complexo do Alemão
US$ 1 milhão por mês, fruto da venda de cocaína e maconha e que garante emprego a mais de 200 pessoas - do fogueteiro à cozinheira dos "soldados"
o triunvirato que comanda o tráfico do Complexo do Alemão há pouco mais de dois meses. Até a madrogada de 14 de junho as comunidades (...) viviam sob as ordens de Orlando da Conceição, o o Orlando "Jogador"
Uê mandou matar o antigo companheiro para ampliar seus domínios. Junto com Orlando morreram 12 integrantes do estado-maior da quadrilha.
OS DONOS DA COCAÍNA
Acari 80 pessoas, 30 'soldados' Adeus 100 pessoas, 30 soldados Juramento 100 pessoas, 30 soldados - Uê
Andaraí - Ricardo da Conceição, o Cabarra 80 pessoas
Borel - Juca Pé de Pato 80 pessoas
Conjunto Habitacional Antares - Adilson Camargo (Soldado) 80 pessoas
Dendê e vizinhos - Miltinho 100 pessoas
Dona Marta - Pedro Gilson de Araújo, Pedrinho da Prata, e Ronaldo Pinto Lima Silva, Ronaldinho
Jacarezinho - Ceará, Índio e Lambari
Mangueira - Polegar 100 pessoas
Parada de Lucas - Robertinho de Lucas 60 pessoas
Pavão-Pavãozinho e Cantagalo - Eriberto 150 pessoas
Rocinha - Cícero de Araújo, o Parazão 100 pessoas
São Carlos - Adilson Balbino 60 pessoas
Vigário Geral - Flávio da Silva Pinto, Flávio Negão 50 pessoas
OESP 23-01-1995
Morte de 'Negão' reabre guerra do tráfico
Os moradores de Vigário Geral temem que o sucessor de Negão - provavelmente Ulisses, braço-direito do traficante, ou um de seus gerentes, Sandinho e Ricardo - seja obrigado a defender o "império do pó" construído por Negão da ofensiva de José Roberto da Silva, o Robertinho de Lucas
OESP 7-01-1995
Traficante é morto em batalha com rivais
O corpo de Aldair Cabral Mangano, o "Nem Maluco", de 19 anos, um dos principais chefes do tráfico nas favelas do Rio, foi encontrado depois de um tiroteio entre quadrilhas no Morro do Adeus
após tiroteio entre quadrilhas rivais que durou cerca de três horas.
Morro do Adeus, uma das 11 favelas que formam o Complexo do Alemão.
Ele recebeu vários tiros e seu corpo foi arrastado por mais de 500 metros por uma corda de náilon
segundo uma das versões de policiais, traficantes ligados a Uê tentaram invadir, por volta das 23h30, as favelas do Morro do Alemão, Grota e Nova Brasília.
Por volta das 2 horas os traficantes ligados a Nem Maluco se juntaram ao bando de Marcinho V.P., um traficante de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, que hoje domina o comércio de drogas na Favela Nova Brasília. Pelo menos 60 homens invadiram o Morro do Adeus (...) mas os soldados (integrantes da quadrilha) de Uê revidaram a ofensiva. Houve novo tiroteio que durou até pelo menos 4 horas, quando Nem Maluco foi agarrado (...) no alto do Morro do Adeus.
Depois de espancado o traficante foi morto com pelo menos quatro tiros de fuzil AR-15 na cabeça e na virilha.
Numa outra versão Nem Maluco teria sido traído por Marcinho V.P., que aproveitou o tiroteio para matar seu ex-aliado e colocar a culpa no rival Uê.
Nem Maluco era remanescente da quadrilha do traficante Orlando da Conceição, o Orlando Jogador, morto com outros integrantes do bando em junho do ano passado.
Após a morte de Orlando Jogador a quadrilha se dividiu. Nem Maluco acabou ficando com os morros Vila Cruzeiro, Quatro Bicas, Grota e Alemão, mas vivia em guerra para dominar outros pontos do Complexo do Alemão.
Exército prepara ofensiva na região
Militares fizeram reconhecimento de áreas do Complexo do Alemão para futura investida
O Globo 07-01-1995
Traficante Nem Maluco é morto pelo bando de Uê
1995 Traficantes não comandam mais a Rocinha
JB 12-02-1995
Traficantes não comandam mais a Rocinha
Ex-PM assume liderança comunitária e muda imagem da maior favela do Rio
A imagem que marcou a Rocinha na década de 80 foi a do traficante Eronaldo Bezerra Mata, o Naldo, usando um casaco branco com capuz e disparando seu AR-15 do alto de uma laje na favela.
Ao contrário de boa parte das favelas do Rio a Rocinha já não sofre mais a influência do tráfico de drogas. Durante a Operação Rio o Exército nem precisou subir o morro de 80 mil moradores.
Desde meados de 93, quando houve seis mortes de uma só vez, não há confronto armado entre traficantes e nem entre eles e a polícia na favela que virou bairro por decreto do prefeito César Maia, com base em projeto do ex-prefeito Marcello Alencar
Jorge Mamão, eleito presidente da associação com mais de 50% dos votos, com apoio do patrono da escola de samba Acadêmicos da Rocinha, o bicheiro Luiz Carlos Batista.
O Globo 11-12-1994
Cruzes marcam o domínio do tráfico nos morros
Símbolo da redenção para a Igreja, símbolo de poder para o Comando Vermelho
Durante a ocupação do morro do Borel soldados derrubaram o cruzeiro que pertencia à comunidade e que havia sido colocado ali durante uma procissão com a benção do padre Olinto Pegoraro.
No Morro do Juramento, há dez anos, o traficante Escadinha botou um cruzeiro que servia de palco para as execuções das pessoas que eram julgadas traidoras pela quadrilha.
No Morro do Andaraí há pelo menos dois cruzeiros. Nenhum deles foi posto ali pela Igreja. Indicam - mesmo à distância - os pontos de venda de drogas na favela.
Escadinha, primeiro a adotar o símbolo
A cruz vermelha e branca tem os dizeres "paz, justiça e liberdade"
o Terceiro Comando também já usou cruzeiros com os dizeres "Viver e deixar viver"

FSP 13-07-1993
Comando Vermelho perde a 'guerra do tráfico'
Prisão de líderes enfraquece o grupo e facção rival passa a dominar 'bocas-de-fumo' na favela da Rocinha
Para ter o controle das 'bocas' da Rocinha bastou ao TC convencer Eraldo Souza da Silva, 34, a trocar de camisa. Indisposto com as lideranças do CV presas em Bangu I
Outras favelas tradicionais do CV têm sofrido investidas do TC.
Só na Rocinha o CV deixa de arrecadar cerca de Cr$ 20 bilhões com a venda de cocaína
o mais perigoso morro do Rio. Desde a prisão de Nelson da Silva, o Bill, há dez dias, que o Borel está sem comando. Remanescentes do bando de Bill ainda mantêm o controle do comércio de drogas mas são acossados pelos vizinhos das favelas da Casa Branca e Turano, ligados ao TC.
CV só 'ganha' uma favela
Comando Vermelho só conseguiu conquistar o morro dos Prazeres (Santa Teresa), que tem só uma boca-de-fumo, ao fim de quase uma semana de tiroteios
FSP 04-12-1994
Semana é decisiva para Exército
A expectativa dos comandantes da Operação Rio é sair das ruas da cidade no dia 30 de dezembro. Mas enfrentam resistências para isso.
Os militares usam cerca de 2.000 homens nas operações. Esse contingente, embora pequeno se comparado à dimensão do problema, não está disponível nas polícias estaduais.
O
Estado do Rio teria que contratar, treinar e
equipar 2.000 homens poara agir com a mesma
eficácia do Exército.
Chacina: acusados ganham liberdade
Dezoito policiais têm prisão relaxada. Em Vigário Geral há medo de vingança
juiz relaxou prisão de 18 dos 51 acusados da chacina de Vigário Geral, quando 21 pessoas foram mortas. Presos desde 1993
"avião", "vapor", "soldado", olheiro e fogueteiro
O Globo 21-06-1997
Infância perdida: Polícias Civil e Federal calculam que seis mil jovens estejam a serviço das quarilhas nas favelas
Vídeo treina os menores do tráfico
Em blitz no Morro da Mangueira fitas e livros sobre armas e munição são apreendidos
- Os traficantes estão treinando os menores com a ajuda de ex-recrutas. Eles precisam fazer isso porque boa parte dos "soldados"(bandido que trabalha na segurança das bocas-de-fumo) é menor de idade e ainda não fez o serviço militar onde se aprende a mexer com armas - contou o major chefe da P2 (serviço reservado) do 4. BPM
esse exército mirim, segundo policiais de Delegacias de Repressão a Entorpecentes das Polícias Civil e Federal, representa 50% do contingente de cada quadrilha que controla o tráfico no Rio. Eles calculam que se o Rio de Janeiro tem cerca de 200 (!!!) favelas e 30 adolescentes aproximadamente atuam no tráfico de drogas em cada uma delas - como "avião", "vapor", "soldado", olheiro e fogueteiro - cerca de seis mil menores estão sendo usados pelos criminosos "adultos".
um "vapor"(vendedor de varejo) pode faturar até R$ 2 mil por mês num dos grandes morros da cidade
estatística do Juizado de Menores:
índice de envolvimento de infratores com drogas em 1991 era de 7,63%
em 1996 o envolvimento de menores com drogas era de 42,25%
P., de 16 anos, "vapor" do Morro do Vidigal:
- Sou menor e não tenho oportunidade. Estou cansado de ver playboy aqui no morro com tênis esperto e carrão. No tráfico posso conseguir mais dinheiro ou morrer. Não estou perdendo nada.
Ernaldo
Pinto de Medeiros, o Uê, e José Carlos dos
Reis Encina, o Escadinha, ambos presos em
Bangu I, tiveram várias passagens pelo Juizado
antes dos 18 anos.
O Globo 23-07-1995
Sob a lei do AR-15
Favela da Prainha, na Linha Vermelha
Um menino de 11 anos pode ganhar dois salários mínimos só para acender morteiros avisando sobre a chegada da polícia.
O "gerente" da área foi nomeado recentemente pelo traficante Ulisses, de Vigário Geral. (...) tem pouco mais de 18 anos.
Os "soldados" e "olheiros" são arregimentados entre os menores. O dinheiro fácil do tráfico seduz os filhos do salário-mínimo.

Roman Polanski: - Sempre que passeio de barco no Rio de Janeiro penso nos primeiros europeus que chegaram por aqui. Um filme que fizesse neste cenário seria algo talvez em cima do contraste entre duas culturas na época dos conquistadores.
- O Brasil ainda não
chegou, você está entendendo? O Brasil
está chegando. Está indo. Mas ele
ainda não chegou – sinalizou
Francisco Weffort em 2014.
Ainda não formado E já deformado. E quando chegar vai estar todo estropiado. O gigante dorme enquanto é vorazmente dilapidado e depredado. O país vira escombros antes de se erguer.
Spike
Lee foi um dos protagonistas da grande
polêmica em torno da filmagem do
videoclipe de They Don't Care About Us
de Michael Jackson, em 1996, no Rio de
Janeiro. Uma das cenas do clipe mostra
M.J. - Emijota aqui entre nós - num
mirante com um dos panoramas mais
estonteantes da Terra, no morro Santa
Marta, que o povão chama de Dona Marta e
até Dona Morta, assim como a favela que
ali cresceu, no sopé do Corcovado
jobiniano, com vista para a entrada da
baía de Guanabara (“como é bonito o Pão de
Açúcar visto daquele ângulo”, Caetano
Veloso) e o mar das
jobinianas-bossanovaianas Copacabana e
Ipanema.
Para gravar lá a produção do incendiário
tandem Lee-Jackson fez um acordo com
Marcinho VP, o chefe do chamado
narcotráfico da favela, uma das grandes
muvucas que há 3 décadas se armam nas
entradas das favelas cariocas nos fins de
semana, num carnaval quase permanente
regado a fumo, bebida e pó. Pó benzido com
muito pó de talco ou o que seja. Emijota
na muvuca (do Dona Morta)
A coisa acabou por ser muito mal
trabalhada pelas autoridades locais com a
mídia e a massa. Disseram que o acordo de
estrangeiros com marginais era uma
afronta. Pelo tom do secretário da
Indústria, do Comércio e Turismo do
governo do estado, que dava a entender
estar querendo aparecer na cola de uma
bela de uma polêmica, parecia até que os
gringos poderiam ser expulsos. Imagina:
“Rei do pop expulso do Rio de Janeiro”.
Péssima publicidade. Ia pegar muito mal.
Os gringos negociarem acordo com
criminosos expunha a olho nu e logo
através de toda a mídia internacional uma
prática corrente até entre os poucos
prestadores de serviços que por lá
circulavam e toda a hipocrisia do
relacionamento e do modus operandi das
autoridades com o problema do controle das
favelas cariocas por notórios
narcotraficantes. No caso de Marcinho VP,
o episódio foi a escada para a fama
nacional e internacional e para o público
em geral um prato cheio de piadas por umas
duas semanas.
Quem quer que do “asfalto”, nos sopés,
queira fazer alguma coisa nas favelas do
Rio de Janeiro em 1996 tem que combinar
com os “donos” – xerifetes ou baronetes –
do lugar. O prefeito da capital do estado,
César Maia, admitira semanas antes que a
autarquia negociou com o tráfico a
construção de um muro no fundo dos jardins
da sede da Prefeitura carioca no sopé do
Dona Marta. Claro que depois da reação
escandalizada que gerou um megaescândalo
que fez rolar rios muito maiores de tinta
no Brasil e ao redor do mundo – tudo o que
uma grande produção mais quer, publicidade
-, a começar por uma “séria” ameaça de
suspender a operação, a rodagem das cenas
no mirante do morro de um dos trechos
cariocas do videoclipe acabou por
acontecer numa tarde de domingo.
Spike Lee, que do seu lado já era bastante
notório pelas suas fitas, tornou-se então
mais “um de nós” para a massa brasileira,
pela exposição que teve naqueles
breves-longos dias de hipócrita tiroteio
das ótoridades ao “desaforo” das
celebridades globais, que ao quererem
exibir-se num dos mais famosos cenários da
cidade acabaram por pôr o dedo numa das
inúmeras feridas dos seus cânceres
metastásicos. Sobretudo porque Emijota,
como era do seu estilo e era o mais
sensato fazer mesmo, jamais deu as caras
durante o processo, Lee acabou por ter
ampla exposição em jornais e telejornais e
naqueles dez, quinze dias tornou-se parte
da galera e do cenário.
na ditadura militar 1964-85 o Brasil mudou de face do fazendão subaproveitado (selvagem) para a depredação da orla oceânica com o inchaço urbano. Ficou ainda mais deformado – cheio de favelas - desmatado e amputado
os militares só conseguiram mesmo fazer o que os americanos queriam e impor os princípios de ordem que de algum modo tinham conseguido fazer prevalecer desde a implantação da República oligárquica que conseguiu sobrepujar até Gegê com pretensas prerrogativas positivistas quais ordem e progresso e institucionalizando a violência que perpassa toda a história do Brasil pela prepotência e a tortura, quando necessário, imperante até hoje na polícia oficial (Polícia Militar) e clandestina (os antes chamados esquadrões da morte, hoje milícias). O Brasil é terra sem lei e sem ordem como no tempo em que mandava no sertão quem era forte “e até Deus tem de andar armado”, como epistrofou Guimarães Rosa. Em primeira e última análise a lei é a ordem dos coronéis e do cangaço do século XIX ao XXI.
A violência dos cangaceiros urbanos assume proporções assustadoras e os moradores começam a erguer grades ou a elevar os muros para se proteger em ce(lu)las condominiais ou familiares. No Rio de Janeiro a Falange Vermelha dá lugar ao Comando Vermelho – nada a ver e tudo a ver com política. E o chamado narcotráfico toma de assalto a cidade e o país. O Brasil africaniza-se, o que até poderia ser uma boa em termos de encarnação de parte de sua identidade. Mas africaniza-se só no pior sentido em termos de condições existenciais. A questão social torna-se definitivamente caso de polícia, como a via o presidente Washington Luís há um século, no perigeu da república do café com leite.
O
prefeito do Rio de Janeiro diz que há seis
meses elabora com arquitetos, urbanistas e
economistas um plano para tratar a questão
das favelas, que custará R$ 5 bilhões até
2016.
Abril
de 2010 – 212 pessoas morrem e 150
desaparecem num deslizamento de terras no
morro do Bumba após alto índice de
precipitação de chuvas, em mais um caso de
incúria e pecado venal. O Morro do Bumba
foi ocupado depois que um depósito
clandestino de lixo que ali funcionou de
1970 a 1986 foi desativado. Um lixão
selvagem, como tantos que existem no
Brasil. O lixo orgânico, em decomposição,
produz gás metano, um gás explosivo.
Niterói, região metropolitana do Rio de
Janeiro, 2010:
- Eu sabia do lixão, mas não sabia do risco – disse o prefeito Jorge Roberto Silveira, que governou o município de 1989 a 1997. A ocupação era de todo modo reconhecida oficialmente como logradouro, pois tinha água encanada e energia elétrica.
-
Sucessivos governos no Brasil fecham os
olhos a ocupações ilegais de encostas.
Em parte para disfarçar a sua
incompetência, por não investir
seriamente e com continuidade numa
política de habitação e transporte para
famílias de baixa renda, em parte porque
favelados com água e luz sempre foram
sinônimo de votos. Existe mapeamento de
áreas de risco, há verba federal
disponível, não faltam técnicos e
cientistas capazes de assessorar o
governo na remoção, mas essa palavra
ainda é um tabu – sentenciou a
revista Época na ocasião. Claro como água.
A revista informou também que não houve
seca mas entre 2010 e 2012 a Bahia foi
contemplada com 64% da verba federal
destinada à prevenção de desastres. O
ministério responsável era chefiado pelo
baiano Geddel Vieira Lima, que deixou a
pasta controlada pelo PMDB para concorrer
ao governo do seu estado. Das verbas
destinadas pelo Orçamento de 2009 e
efetivamente gastas, 90% foram para
prefeituras baianas. Geddel negou a
preferência e afirmou que a Bahia
apresentou mais e melhores projetos. Ainda
assim em Salvador, por exemplo, dezenas de
pessoas morrem quase todos os anos em
deslizamentos de terras em ocupações.
O Maranhão de José Sarney em 2000 é o mesmo de Maranhão 66, documentário da posse do governador nomeado pela ditadura militar enquanto a câmera na mão de Glauber Rocha passeia pelos escombros do centro histórico de São Luís e o estado deplorável das habitações invadidas por populares. Glauber fez o documentário em troca de financiamento de Terra em Transe, o seu longametragem de 1967.
a grande maioria dos jovens negros, mestiços (ou pardos, como se chamam) e de muitos brancos pobres cuja educação é uma das causas das dores de cabeça do país, porque suas bases deploráveis prejudicam a produtividade. A maioria dos pais, da massa ignara, por falta de ilustração (juízo) ou porque assoberbados pela guerra da sobrevivência, não sabem ou não podem educar os filhos e o ensino público não os atrai, antes os repele, com toda a sorte de problemas estruturais dos estabelecimentos em si, do corpo docente e da qualidade do ensino, empurrando os mais desafoitos ou aventureiros para engrossar – por falta do que fazer, pois não estudam nem trabalham – o exército da delinquência juvenil e as estatísticas da violência urbana, suburbana e rural.
O espaço público é em geral uma choldra ou joça e a maioria dos habitantes dos aglomerados urbanos tem uma existência mais aparentada à animalidade do analista de João Ubaldo Ribeiro, indigente, dependente e eternamente carente de desvelos, ou seja, da satisfação dos direitos básicos em restituição aos impostos (a história da Nova República pós-ditadura é a do aumento da taxa de cobrança direta ou indireta de 24 para 38%).
Tristes Trópicos, o tópico ideográfico de Lévi-Strauss, traz a abrir uma análise comparativa das metrópoles indianas com as maiores cidades brasileiras. Tarun Dutt, o economista indiano que ajudou a reeguer Calcutá, a grande complicação urbana do Terceiro Mundo, com a quinta população citadina do planeta, um em cada três habitantes a morar num ambiente de densidade e sujeira que raras favelas brasileiras conhecem, disse que provavelmente o Brasil urbanizou-se demais e muito depressa.
Na India, segundo ele, os governos investiram no campo, fazendo reforma agrária e distribuição de terras, construindo mercados rurais e redes de transporte e assim estancou-se o êxodo rural. O dominador não tinha domus no espaço rural brasileiro e não o desenvolveu. Muito ao contrário ou o oposto do norteamericano, em que famílias, comunidades inteiras transferiram-se para lá para sempre, conquistando, ocupando e chamando de seu tudo aquilo e desenvolvendo-o à sua boa e velha maneira. O espaço urbano sem projeto além do fazendão infla sem o mínimo ordenamento e menos ainda planejamento com levas de migrantes enxotados dos campos – e sobretudo do Nordeste, o único povoado há mais tempo, desde o início da colonização, porque década após década a urbanização faz-se na cola de invasões ocupações e “puxadinhos” esticados e erguidos por severinos da morte e vida severina ou pedros transformados em pedreiros, porque fazer massa é fácil. Primeiro de tábua (tauba, por quem são) e zinco e depois de tijolo e telhado de telha de amianto. O esgoto clandestino ligado a matas e rios que desaguam como línguas negras nas praias também cada vez mais poluídas.
... a minha pátria é desolação De caminhos; a minha pátria é terra sedenta E praia branca.
Não é mais, Vinícius de Moraes.
enquanto
a massa de desvalidos quintuplica o Brasil
cresce aos trancos e barrancos e de emenda
em arremedo, de que São Paulo é a síntese:
onde já nos anos 1930 Claude Lévi-Strauss
descortinou um mundo que mal se ergue e já
é ruína e a paisagem urbana de algum modo
harmônica que conheceu começa a
transformar-se num petalabirinto de
concreto, asfalto e favelas com um ou
outro oásis pelo meio. Sobretudo a partir
de 1970, toda cidade brasileira
transformou-se nisso, não sendo as outras
no entanto nenhuma São Paulo. A censura
impediu que corressem rios de tinta sobre
o tema mas subentendidos da questão
originaram até título de telenovela (O
Espigão, 1972, Selva de Pedra,
1974, Janete Clair).
A especulação imobiliária nos anos do boom
da ditadura foi de tal ordem que a faixa
de areia da praia do Leblon, no Rio de
Janeiro, deixou de ser banhada pelo sol à
tarde, porque entre o meio-dia e a uma ele
se põe atrás dos prédios construídos em
sua orla, a Delfim Moreira. Também no Rio,
o plano urbanístico da Barra da Tijuca,
feito por Lúcio Costa, foi desvirtuado ao
começar a sair do papel. Houve quem à
época (nas entrelinhas) bradasse ao
escândalo. Como Millôr Fernandes, no
Pasquim, um jornal de circulação reduzida
entre uma pequeníssima fatia da população
e, com o fim da censura, em 1985, no
Jornal do Brasil do Rio de Janeiro.
- Se Salvador fosse conservada seria tão
sofisticada como Portugal. O brasileiro
não tem tanta tradição de cuidar das
coisas como o europeu – reclamava a
cantora Gal Costa em 2012, quando voltou a
morar em São Paulo, onde iniciou a
carreira nos anos 1960 com os amigos
Caetano Veloso e Gilberto Gil. Pior: dizia
não ter nenhuma saudade da Bahia porque a
via muito mal cuidada. - Os governantes
não estão cuidando dela como deveriam –
proclamou com a veemência de uma baiana da
própria Soterópolis. Um ano e meio depois
Caetano Veloso tomou a palavra para lançar
depoimento outrotanto autorizado porque
oriundo de Santo Amaro da Purificação, no
chamado Recôncavo Baiano, no entorno da
Bahia de Todos os Santos, donde a
soterópolis.
Salvador tem papel relevante no cenário
mundial porque no século XVII era o maior
centro habitacional a sul do Equador e
pela sua toponímia e porque foi ali que
tudo começou, enquanto qualquer outra
cidade do Novo Mundo seguiu os padrões do
urbanismo pós-renascentista de retas e
perpendiculares, é ainda uma réplica gêmea
de Lisboa e Porto, com seus labirintos.
Colinas acima e abaixo casarões desabam ou
são derrubados pouco antes de cair, apesar
de seu centro histórico ser Patrimônio da
Humanidade da Unesco. Descreveu Caetano:
- Uma imagem tomada por Orson Welles no
filme que ele começou a fazer sobre
jangadeiros cearenses que desceram de
jangada de Fortaleza até o Rio (1941)
mostra Salvador como uma obra-prima
urbanística. Nada menos.
Assim era também o Rio de Janeiro década e
meia depois, embora o seu centro histórico
já tivesse alguns espigões feios e
desproporcionados. Descrição detalhada de
suas belezas nesse particular encontram-se
no livro de Stefan Zweig que, como lembra
Caetano, escreveu que “o Brasil tem as
cidades mais bonitas do mundo”.
- (H)oje nós podemos dizer que as cidades
brasileiras estão entre as mais feias do
mundo – contrapõe o autor de dezenas de
canções sobre algumas – quase se diria –
antigas joias litorâneas brasileiras.
- Se tivesse havido consciência do valor
estético (da estrutura urbanística e
arquitetônica de Salvador) e tivéssemos
podido planejar a modernização mantendo-a
(o que não é nada impossível; as cidades
europeias são ao mesmo tempo mil vezes
mais modernas e mil vezes mais preservadas
do que as nossas), teríamos hoje uma joia
do Atlântico Sul, em lugar do caos que
vemos – atesta.
Ao reclamar da queda de um terço da
ocupação hoteleira no século XXI os
operadores turísticos pedem às autoridades
que promovam campanhas para atrair
turistas à cidade, com potencial para ser
uma Cartagena de las Indias em escala
desproporcional, porque seu litoral e as
imediações, como cantou o seu maior
cantor, “tem encantos que nenhuma outra
tem”. Certo que, entre as ruínas, ainda se
erguem tesouros de estarrecer Umberto Eco
entre outros grandes cantores. E o seu
mar, visto de longe, é belo como nas
canções de Caymmi.
Visto de longe... de perto é fedido, é
fedido, como anotou Antônio Risério.
Salvador é aqui tomado como exemplo – e um
dos mais deploráveis, talvez. A descrição
de Caetano, para o caso, é irretocável,
faltando apenas acrescentar que o que
estão fazendo na expansão modernizadora da
antiga “terra da felicidade” é do mesmo
modo de bradar aos céus. Pior é que não é
menos verdadeiro e extensível a todo o
mapa do Brasil o que o “diseur” de
A-ma-ra-li-na escreveu adiante:
- (O) olhar realista para a
feiura visual e social produz ceticismo.
Feiura visual e social. No Brasil de norte
a sul: O amontoado caótico, colinas acima
e abaixo, em Salvador da Bahia, é uma
perspectiva de décadas da expressão do
descuido com a condição humana no ergue e
bota abaixo anotado em São Paulo a partir
da década de 1930 por Lévi-Strauss, de que
Caetano Veloso faz ligação direta com “a
força da grana que ergue e destrói coisas
belas” num antiprojeto em que gente e
natureza são tratados como ou viram lixo.
O centro bastante limpo com uma gestão
normal, o resto um furdunço, monturos de
entulhos, moscas, cheiro acre de urina e
lixo orgânico em decomposição entre
dezenas de queimadas de plásticos e pneus,
como a aglomeração nas colinas até as
campinas e além, até o Recôncavo Baiano de
Robinson Crusoé e além, e o mau cheiro
onde as brisas e ventos de leste
purificadores da cidade rodeada pela
imensa baía e o alto mar não chegam e não
varrem saudavelmente o bedum.
Outra preciosa joia arquitetônica lusa –
que como algumas centenas de sítios são
testemunhos vivos (embora na grande
maioria decadentes) de acervo português no
Brasil como se pedaços de Portugal nele
tivessem sido enxertados - , o centro
histórico de São Luís do Maranhão, réplica
de bairros lisboetas dos séculos XVII e
XVIII, encontra-se em estado lastimável de
não conservação, que leva o transeunte a
deplorar: - Que tristeza!
O amontoado caótico, colinas acima e
abaixo, ganha ecos retumbantes de Blade
Runner, um mundo onde nenhum sentido
escapa de um lado aos encantos
lusoafrocubajamaicanos e do outro ao
ribombar de tonitruantes caixas
amplificadoras de som instaladas em capôs
ou nas malas de carros utilitários muitas
vezes de menor valor que as caixas a
irradiar em 80 decibéis ou mais,
infringindo os limites da lei – mais uma
lei “que não funciona” -, quais trios
elétricos do famoso carnaval baiano com
efeito chocante em tímpanos e peitos, dia
e noite, sete dias por semana, os
indefectíveis sons da Era Lula e da nova
classe C, em gêneros tão híbridos quanto
indecifráveis e de mau gosto (para quem
tem bom gosto) do arrocha (primo distante
do bolero) e do pagode baiano, muito
diferente do samba de pagode carioca, às
vezes tão híbrido e lotado de sons
sampleados que fazem até lembrar a fase
jazz-rock de Frank Zappa, qual Jazz
from Hell, com linguajar para
lá de chulo, muito grosso (passe a
expressão...). Dezenas de milhares de
trios elétricos zoam intermitentes com
sons de tal quilate ou de “hinos” do
repertório da chamada música gospel à
mistura com anúncios de lojas e cultos
numa “igreja” do bairro.
Cola aqui à perfeição o que escreveu Waly
Salomão, baiano de um dos interiores
profundos e de vastas conexões com a
cultura global:
Paupéria: uma região de parcas pecúnias
de Pindorama, isto é, a terra das
jussaras, das íris, das pupunhas, dos
licores e dos babaçus. Paupéria:
miserabilismo terceiro-mundista.
Pindaíba. (O Terceiro Mundo, essa cilada
conceitual.) Paupéria: inversão cinza e
sistemática do baudelairiano convite à
viagem: onde tudo não é senão desordem,
feiúra, pobreza, inquietação e
antivolúpia: tristeresina total.
F A V E L I Z A Ç Ã O E
N E O M E D I E V A L I Z A Ç Â O U R B A N I
S T I C A A M E R I C A D O S U L Nessa
linha de raciocínio sobre urbanismo e
paisagismo incluem-se todas as cidades
brasileiras – Petrópolis, Rio de Janeiro,
São Paulo já no tempo (e pela visão) de
Claude Lévi-Strauss (que mal se ergue e já
é ruína) ou Manaus, que em 1852 tinha
quatro mil habitantes, 40 anos depois vive
a época de ouro do ciclo da borracha e um
crescimento explosivo, em que nasce a
primeira capital da floresta tropical, com
um desenvolvimento urbanístico e
arquitetônico em que grana não é problema
e com o fim do ciclo da borracha nunca
mais se recuperou.
Passou a viver de remendos arquitetônicos
e urbanísticos, porque na cidade não
existiam mais arquitetos e o que ela tinha
em quantidade era pedreiros e mestres de
obra portugueses a repetir o que tinham
visto fazer em sua terra de origem,
adaptando riscos e traças a um possível
gosto local.
Nascia assim antes do tempo e fora do
espaço a casa portuguesa com certeza do
final do século XX em Portugal, as
chamadas casas tipo maison construídas
pelos emigrantes que mantiveram os dois
pés na terrinha enquanto amealhavam no
estrangeiro para o patrimônio da
aposentadoria. Uma passagem de Luiz de
Miranda Corrêa em Manaus – Roteiro
Histórico e Sentimental da Cidade do Rio
Negro (1969) é a súmula do
desconcerto paisagístico do Brasil no
século XX: - A modernização das fachadas
ou habitações de 1900 se constitui em
capítulo de mau gosto e de vandalismo. A
desfiguração de sobradões lusobrasileiros,
em que belíssimos azulejos franceses,
ingleses, belgas ou portugueses foram
muitas vezes substituídos por ladrilhos de
banheiro ou de cozinha gerando fachadas de
um mau gosto insuportável.
Casarões desabam em ruínas às dezenas em
Salvador, que dificilmente poderá
sustentar-se como ícone de um paradisíaco
carnaval tropical da capa de Spyro Gyra (Carnaval,
1980), como variante do Rio de Janeiro
quando a cidade maravilhosa cansou.
De
outro lado, grande parte da construção
brasileira tem sido feita por pedreiros e
mestres de obra que todo mundo é, pode
ser, porque basta saber fazer massa e
"bater a laje". Lápide do urbanismo
civilizado de há cem anos, totalmente
inspirado em Paris e em arquitetura de
morar – e no próprio modo de vestir da
época – doentiamente por demasiadamente
inspirada, como notou o parisiense de
nascença e cultura Lúcio Costa.
Manaus, como fixada por Miranda Corrêa,
teve então a sorte de seus governantes se
preocuparem em construir praças e jardins
humanizando traças, as vezes eminentemente
europeias, que se chocavam com a realidade
tropical. Como fontes, coretos, estátuas,
luminárias e outros enfeites da Europa,
copiava os parques de Paris e Londres, que
cumpriram honrosamente sua missão de
refrigerar a cidade tropical, com
vegetação frondosa. O Rio de Janeiro tirou
uma casquinha de Haussmann e da Opera
(Theatro Municipal), criou a praça Paris
ao lado do Passeio Público e arvorou-se a
cidade-luz da América do Sul mas em pouco
tempo tornouse em mais um pasto da
especulação imobiliária de vista curta a
erguer barreiras à circulação do ar e
profundidade do campo de visão.
Cinzentas nuvens de fumaça umedecendo
meus olhos, imensos blocos de concreto
ocupando todos os espaços, lamenta
Paulinho da Viola em 1975 (Amor à
Natureza). O Rio Notorious de Ginger
e Fred a Hitchcock ficou por isso mesmo.
Sintomático que o movimento de restauração
haussmanniano para desfavelizar o centro
da cidade de Pereira Passos, o
Bota-Abaixo, provocou a explosão da
favelização da cidade que é uma das
características mais marcantes da evolução
urbanística do Brasil e, já agora, da
América do Sul.
O
caos urbano, suburbano, rural e ambiental
(porque quantos Portugais de Amazônia são
desmatados e queimados no Brasil a cada
ano) é reflexo de uma aberração de séculos
acentuada pela ditadura militar e pelos
sucedâneos, porque o Brasil, se não perdeu
ainda, pode perder todos os crânios que
ainda tenha por falta de campo para
desenvolver conhecimentos ou habilidades.
E quando os desenvolvem, como no pioneiro
programa de combustíveis alternativos ao
petróleo, são subestimados, menosprezados.
Os movimentos de avanço da construção
civil em anos em que a economia cresce,
por conta da especulação, da corrupção e
do pouco caso das autoridades, são de
retrocesso, pela feiura, falta de
funcionalidade e adaptação aos tempos
hodiernos de arquitetura ecoambiental e às
próprias condições climáticas de cada
região (algo que a arquitetura ao metro
quadrado brasileira teima em
desconsiderar). Caso em que é até de
desejar que a perspectiva lévi-straussiana
continue atual e que da ruína da maior
parte do que se faz há mais de meio século
no país nasça algo mais belo e racional.
Corrrupção, tortura e caos existencial
desenfreados, sob o manto da alegria e fé
no porvir, não são fenômenos exclusivos do
Brasil. Mas ele é um dos maiores exemplos
da propagação da civilização ocidental e
está mais perto do centro que a Índia, por
exemplo, o que torna a coisa mais visível,
chocante, para boa parte do mundo.
A Idade Média brasileira é o que ele
herdou do mandonismo e servidão e os
traços caracteriais do Nordeste, onde o
Brasil começou e onde prevalece a
mentalidade de estrutura neofeudal e o
obscurantismo da crença no transcendente
milenarista sebastianista dominante entre
os eleitores e seguidores de coronéis
políticos e líderes religiosos que são a
encarnação do Pai na Terra. Da literatura
de cordel ao Antônio Conselheiro, líder de
Canudos, Padre Cícero “padroeiro do
sertão” e a Lula, o último messias dos
pobres.
Anotou Antônio Callado em 1976 em Reflexos
do Baile, romance:
- Oriundas da Guerra de Canudos, as
favelas do Rio, atavicamente a Serviço,
ainda, do Conselheiro, são os torreões
de massapé e as muralhas de adobe da
Troglodítia, são a quinta-coluna, o
câncer ósseo em nosso esqueleto
implantado, são a imagem de barro que é
preciso destruir.
Delenda, por exemplo, Rocinha. Não se
delendou. E ela, um dos primeiros, será
apenas mais um dos mil e setecentos
maiores aglomerados espontâneos da região
metropolitana do Rio de Janeiro. Fora
Salvador da Bahia, as vilas só começam a
florescer no século XVII. Mas o traçado
medieval de escadarias e emaranhado de
becos e vielas acabou por se impor no
último século e sobretudo nos últimos
cinquenta anos. Zweig descreve com encanto
bucólico as primeiras aglomerações
encarrapitadas nos morros da Zona Sul do
Rio de Janeiro nos anos 1930, como a
Rocinha, que hoje tem 30 mil habitantes e
foi uma das pioneiras entre as mais de mil
e setecentas existentes na região
metropolitana da cidade.
É já uma favela-bairro. Um dia será
“urbanizada”, como as 200 favelas de São
Paulo, segundo um plano em andamento, até
2050. Até o fim do século o Brasil, que
não teve um urbanismo medievalesco, terá
os seus milhares de bairros – e centenas
de municípios – medievais... dos séculos
XX-XXI.
Cidades há, como o Rio de Janeiro, São
Paulo e Belo Horizonte, que já tinham se
expandido e as favelas ficaram mais ou
menos separadas, mesmo que cada vez mais
visíveis nos penhascos cariocas e
esparramando-se de tal modo que acabam por
se confundir com o mundo do asfalto. Mas
no que também essas cidades foram se
expandindo fizeram brotar, paralelas com
os bairros dos brancos e pardos mais
claros, as favelas dos pardos mais escuros
e negros de todos os tons. Em muitas
cidades, por falta de planejamento
arquitetônico e urbanístico, os próprios
bairros crescem espontaneamente para os
lados e para o alto, sem supervisão
pública, confundindo-se com favelas que
brotam onde haja espaço livre para se
ocupar, muitas vezes em locais de risco. O
que não raro provoca grandes tragédias.
Ninguém se preocupa em gastar dinheiro com
acabamento exterior, só com o interior e
muitas vezes nem isso, porque não tem
mesmo o que investir. E o que também faz
com que as cidades brasileiras hoje
estejam entre as mais feias do mundo são
os remendões de tijolo e cimento entre os
espigões dos “bacanas”, ou pouco mais ou
menos. Ou ao lado ou nos fundos de
condomínios que por sua vez, paralelos aos
shoppings, são quase os únicos espaços
para transeuntes com o mínimo de
segurança, as cidadelas modernas das
cidades dominadas pela violência, em um
ambiente VERDADEIRAMENTE DANTESCO.
- As maiores cidades brasileiras são
grandes feridas sem cura provável a médio
ou longo prazo. Em todas elas instalou-se
o caos, uma desordem que nem de longe é
semente que venha a produzir um bom fruto.
Segurança pública, saneamento básico,
saúde, trânsito, tudo é uma imensa sucata.
Temo que os próximos quarenta anos apenas
agravem a atual situação. – José Wilker,
ator.
Violência polícia VIOLÊNCIA NO PARAÍSO VIOLÊNCIA NO PARAÍSO VIOLÊNCIA NO PARAÍSO VIOLÊNCIA NO PARAÍSO Notícias do Tiroteio The ShootDown News
Ao transferir-se para as “comunidades” (eufemismo para favelas, que parece mais chocante), o Estado transfere também a sua escória, autoridades em geral i.e. políticos (salvo exceções) e membros de milícias, de grupos do chamado narcotráfico ou facções criminosas, que se reúnem em conluio (pago, porque aqui ninguém trabalha de graça) e eis o ovo da serpente que se revela. O mal impera sobre o bem e o projeto logo vai a pique. Porque não é do interesse de ninguém, nem mesmo em princípio dos moradores que ao mudar o estado das coisas vão ter de pagar taxa disso e daquilo mais conta de água, luz e o escambau, de que usufruem grátis ou 0800 via gato, ligações clandestinas, inclusive wi-fi gatonet. Milicianos são por duas décadas na maioria agentes de segurança pública, não importa o que, soldado ou cabo ou sargento da PM, marinheiro, basta que seja de alguma força da autoridade.
A Falange Vermelha nasceu no Presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande, cenário de Memórias do Cárcere, em que Graciliano Ramos descreve sua experiência como preso político da ditadura de Getúlio Vargas. Presos da ditadura militar são enviados quarenta anos depois para o mesmo presídio e, como o escritor, postos em convívio com delinquentes comuns. Entre eles está José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, que espalhará muito terror nas cadeias e o seu poder sobre uma das cerca de 500 favelas existentes no Rio de Janeiro nos anos 1980. Membros de grupos de guerrilha ensinam-lhe tácticas de organização e luta política. Da sua Falange Vermelha, como de um PCB, nascerá a dissidência Comando Vermelho e desta o Terceiro Comando. Tudo sobre uma estrutura organizativa do tipo célula política clandestina.
... narcotráfico
O regime policialesco, que faz com que os cidadãos convivam com todo tipo de arma por onde quer que trafeguem, agrava um contexto de corrupção disseminada na polícia e a violência nas ruas. Em outubro de 2009 é lançada uma operação para pacificar 49 favelas através da instalação de Unidades de Polícia Pacificadora da Polícia Militar, uma contradição em termos.
Em 15
de março de 2010 o jogador de futebol
Wagner Love, atacante do Flamengo, repete
as aventuras de Adriano Imperador, o seu
antecessor na vaga, e vai a uma festa na
Rocinha escoltado por traficantes com
fuzil. Seis dias depois o governo do
estado implanta uma UPP no morro do
Livramento, no centro da cidade do Rio,
onde as favelas começaram a brotar entre
os séculos XIX e XX. Cai a seguir o Borel,
quando as autoridades repetem a promessa
de que a UPP que ali será instalada irá
ser o posto avançado de uma ação tendente
a levar às favelas serviços de que não
desfrutam e que esse será o elo de ligação
entre o poder constituído e a população
nas 26 favelas ocupadas em 2010,
equivalentes a apenas 1% do total de
favelas da região metropolitana, segundo
Fernando Gabeira, fundador do Partido
Verde, em campanha eleitoral para a
Prefeitura carioca.
8 de Novembro de 2010 – Operação da
Polícia Militar na Vila do Cruzeiro e 800
soldados do Exército cercam o Complexo (de
favelas) do Alemão, de que aquela favela
faz parte. A ação é antecipada em relação
aos planos do governo, que decide
responder a reações dos traficantes ao
avanço das UPPs. A escolaridade média no
morro do Alemão é de cinco anos e os
rendimentos dos trabalhadores que ali
residem equivalem a menos de um terço do
rendimento médio na cidade. 26 de novembro
– Guerra Urbana no Rio de Janeiro: Favela
Vila do Cruzeiro bairro da Penha, Complexo
do Alemão – 43 mortos em cinco dias, 98
autocarros incendiados até aqui a mando de
traficantes do Alemão que receberam abrigo
na Rocinha e em São Gonçalo, região
metropolitana da capital do estado. A
“facção do narcotráfio” em ascensão
atualmente é a Amigos dos Amigos. O Globo
27 de novembro 2010 - manchete a toda a
largura da primeira página: A guerra do
Rio
A guerra do Rio Intenso tiroteio entre
Exército e tráfico abre Batalha do Alemão
O governo anuncia entretanto que até 2020
todas as favelas serão urbanizadas,
integrando-se à cidade.
O “tráfico” é o móbil de toda a ação. Um milhão de jovens pardos e negros crescendo espontâneos do nada e sem nada que fazer além de vadiar e fumar um baseado, unzinho, porque a escola não os quer e os enjeita, os pais nem ligam, porque não sabem o que é e para que serve a educação, quando dizem que vão arrumar emprego e, claro, não arrumam porque com boom ou sem boom a economia não ajuda a quem não tem “boa formação”. O “tráfico” é o móbil e ao crescer esses jovens desenvolvem a natural rebeldia juvenil aliada ao instinto selvagem de zona de fronteira e o clima vira de faroeste ou bangue-bangue. Mata-se ou foge-se de susto de bala ou vício como elemento natural na luta pela sobrevivência. Isto passa-se em centenas de concentrações urbanas superpovoadas. Em Salvador, por exemplo, as zonas conflagradas estendem-se por dois terços da região metropolitana, onde os moradores convivem dia a dia com tiroteios e exibições de belos colts de todos os modelos e feitios. Isto em meio a balas perdidas, que vitimam o bebê ou o mais velho que saiu à rua para ver pensando ouvir bomba de São João. Não poupa nem a faixa litorânea onde se concentra a população branca, porque se na frente está Amaralina logo atrás está Nordeste de Amaralina - um favelão. Por nada. Brincadeira de caubói e índio em meio à anarquia à vera.
- Aqui no Rio me esperavam surpresas incríveis. A primeira delas foi ver a beleza da raça brasileira em Ipanema. É a raça dos que comeram. Depois fui ver Caxias, fui ver Madureira; já é outra raça, a dos que não comeram. A figura dos que não comeram, do povão, de um lado, e a beleza de Ipanema formam um contraste. A beleza de Ipanema está muito mais bela e as subtribos de Caxias, do Méier, estão mais terríveis ainda. - Darcy Ribeiro, 1977 - Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1990
O
Brasil está paralisado diante da questão
social e está se tornando uma nação de
castelos armados. No Rio de Janeiro os
edifícios da Zona Sul são cercados de
grades e guardas particulares. É uma
mistura de apartheid social e medo. O
país precisa pensar em fortalecer o
espírito de comunidade e não em levantar
arranha-céus protegidos por cães e
guardas. Não se busca alternativas para
a vida que os brasileiros estão vivendo
no momento. A frase do presidente
(Henrique Cardoso, n.d.a.), de que não
há alternativas, deveria ser tomada como
um desafio pela intelectualidade
brasileira. Eles deveriam pensar em
projetos que tornassem possível melhorar
a justiça social. O sistema político no
Brasil é uma máquina de distribuir
dinheiro para cima, para as classes
média e alta. A elite americana tem mais
sentimento de culpa. É um traço do
protestantismo. O rico brasileiro não
tem sentimento de culpa. O americano
rico fica envergonhado por ter muito
dinheiro. O protestante, como dizia
Calvino, nunca sabe se será salvo ou
não. O católico, cuja moral está mais
presente na cultura brasileira, sabe que
será salvo a cada domingo. – Thomas
Skidmore, brasilianista, em entrevista a
Veja 19 de abril de 2000
AMARCORD GLAUBER ROCHA ANOS 1960 e 1970
Abril de 1889, um ano depois da decretação da libertação dos escravos pela Lei Áurea, uma Comissão de Escravos Libertos escreve ao abolicionista Rui Barbosa: “Comissionados pelos nossos companheiros libertos de várias fazendas (...) do município de Vassouras para obtermos do governo imperial educação e instrução para os nossos filhos (...)” - pedindo ajuda para conseguir cumprimento da Lei do Ventre Livre de 1871, que estabelecia que os filhos dos escravos nasceriam livres e seriam educados. Não foi cumprida a parte da educação. “Nossos filhos foram imersos em profundas trevas. É preciso esclarecê-los e guia-los pela instrução.”
LITERATIROS
LEI DO CANGAÇO | O CANGAÇO NUNCA MORREU
os militares só conseguiram mesmo fazer o que os americanos queriam e impor os princípios de ordem que de algum modo tinham conseguido fazer prevalecer desde a implantação da República oligárquica que conseguiu sobrepujar até Gegê com pretensas prerrogativas positivistas quais ordem e progresso e institucionalizando a violência que perpassa toda a história do Brasil pela prepotência e a tortura, quando necessário, imperante até hoje na polícia oficial (Polícia Militar) e clandestina (os antes chamados esquadrões da morte, hoje milícias). O Brasil é terra sem lei e sem ordem como no tempo em que mandava no sertão quem era forte “e até Deus tem de andar armado”, como epistrofou Guimarães Rosa. Em primeira e última análise a lei é a ordem dos coronéis e do cangaço do século XIX ao XXI.
A violência dos cangaceiros urbanos assume proporções assustadoras e os moradores começam a erguer grades ou a elevar os muros para se proteger em ce(lu)las condominiais ou familiares. No Rio de Janeiro a Falange Vermelha dá lugar ao Comando Vermelho – nada a ver e tudo a ver com política. E o chamado narcotráfico toma de assalto a cidade e o país. O Brasil africaniza-se, o que até poderia ser uma boa em termos de encarnação de parte de sua identidade. Mas africaniza-se só no pior sentido. A questão social torna-se definitivamente caso de polícia, como a visualiara o presidente Washington Luís há oitenta anos, no perigeu da república do café com leite.
- As maiores cidades brasileiras são grandes feridas sem cura provável a médio ou longo prazo. Em todas elas instalou-se o caos, uma desordem que nem de longe é semente que venha a produzir um bom fruto. Segurança pública, saneamento básico, saúde, trânsito, tudo é uma imensa sucata. Temo que os próximos quarenta anos apenas agravem a atual situação. – José Wilker, ator.
Violência polícia VIOLÊNCIA NO PARAÍSO VIOLÊNCIA NO PARAÍSO VIOLÊNCIA NO PARAÍSO VIOLÊNCIA NO PARAÍSO Notícias do Tiroteio The ShootDown NewsPolíticas
públicas propõem apenas atuar na
repressão, sem educar o cidadão. Querem
conter a violência com melhoria de
aparelhamento policial sem investir em
educação. Afinal a cultura que mais se
desenvolveu nas últimas décadas foi a da
violência, de todos os modos possíveis.
Nos anos 1990 São Paulo conseguiu baixar o índice de mortalidade de 20,8 para 10,8 por 100 mil habitantes em cinco anos, a provar como Nova York antes que quando se quer é possível. Mas há algo que faz com que não se queira. E a partir de 2012 a violência voltou a aumentar. Ainda que com os melhores índices do país, o estado teme o regresso aos piores momentos do final dos anos 1980. Ao adotar a nova tática – já antiga afinal – e não dar quartel ao PCC (Primeiro Comando da Capital, dita facção criminosa dominante no estado), teve a reação oposta de caça aos tiras e ex-tiras, em número crescente: 89 policiais foram mortos em São Paulo em 10 meses de 2012 e 415 nos primeiros sete meses de 2015.
Não
faltam exemplos de força abusiva da PM e
das suas Rondas Especiais. O histórico de
corrupção nas corporações vem de longe, do
tempo em que o famoso inspector Le Cocq,
da Polícia Civil do Rio de Janeiro,
comandava uma rede de receptadores de
comissões para deixar os operadores de
bancas de jogo do bicho da cidade em paz.
Quando o não menos famoso assaltante Cara
de Cavalo quis imiscuir-se no negócio e,
perseguido, foi o motor da morte do
inspector Le Cocq, teve o corpo
transformado numa peneira por uma
impiedosa execução a bala.
Outro
assaltante, Lúcio Flávio, deixou frase das
mais históricas nos anais da crônica
policial brasileira ao querer esclarecer
sua posição no relacionamento com um
agente da autoridade:
-
Polícia é polícia, bandido é bandido.
A
história da Polícia Civil do Rio de
Janeiro desde a ditadura de Getúlio Vargas
à Scuderie Le Coq e do esquadrão da morte
às milicias no Rio de Janeiro está
sobejamente contada no livro Cidade
Partida de Zuenir Ventura (1994) e neste
documentário


Clarice lispector na morte de Mineirinho
revista senhor, rio de janeiro
Devo procurar porque está doendo a morte de um facínora. Mineirinho era perigoso e matavva demais. No entanto nós o queríamos vivo. O décimo-terceiro tiro me assassina porque eu sou o outro. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. Em Minheirinho arrebentou o meu modo de viver.
No
Batalhão da Polícia Militar de Duque de
Caxias 22 militares foram expulsos em 2012
numa história “exemplar” de extorsão,
tortura, sequestro e homicídios – toda a
espécie de crime - com os assim chamados
traficantes das redondezas. Os esquadrões
da morte refletem o clima
policialesco-militar clandestino muito
próximo à lei do cangaço sobre que Antônio
Callado trabalhou em Reflexos do
Baile.
Elementos
a serviço de órgãos de repressão da
ditadura passam a “desovar” corpos de
militantes de grupos armados de combate ao
regime executados em terrenos baldios
nomeadamente da Baixada Fluminense, na
região metropolitana do Rio de Janeiro,
que em pouco tempo se tornaria
mundialmente famosa pela proliferação da
desova de cadáveres frutos da ação de
grupos de extermínio ou esqudrão da morte,
que fazem justiça pelas próprias mãos sem
dó nem piedade.
As periferias do Sudeste do Brasil estão pejadas de nordestinos e descendentes. Da sua região de origem às de adoção O CANGAÇO NUNCA MORREU. Nos anos 1950 e 60 o poderio político da Baxada estevve a mando de Tenório Cavalcanti, que mesmo quando exerceu funções oficiais de deputado jamais se separou de seu fuzil, a "Lurdinha".
Em reação à morte de colegas integrantes da polícia postam mensagens no Facebook do tipo: Na Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar) não tem tempo para luto. Antes do enterro do amigo vai começar o velório do inimigo.
É
lendária a participação da Rota na
repressão em São Paulo durante a ditadura
militar.
Postado
e feito. Em vários pontos da periferia de
São Paulo um grupo de extermínio formado
por soldados da Polícia Militar matou 19
de uma vez. Vingam colegas mortos. A
população teme tudo: a truculência da
polícia, a inércia da justiça e o governo
que manda matar. Muralhas de cimento e
grades e artilharia de segurança entre uma
espécie de guerra civil não declarada
constante, dia e noite, que faz também
centenas de vítimas de balas perdidas de
tiroteios entre uma e outra parte nas
grandes cidades conflagradas, umas pouco
mais, outras pouco menos. A autoria de
mais de 90% dos crimes no Brasil não é
apurada – e boa parte dela é da polícia...
2013: PM baiana é a que mais mata no
Brasil. Que seja normal em periferia que
polícia mate e diga que é criminoso (nem
suspeito)?
Greve
da Polícia Militar da Bahia: Salvador,
fevereiro de 2012
Em
fevereiro de 2012 o general que comandou a
segurança do ex-presidente Lula da Silva e
comanda tropa que cerca manifestantes da
Polícia Militar em greve há quatro dias
ganha bolo de aniversário de amotinados
que ocupam dependências da Assembleia
Legislativa do estado. Talvez na Itália
acontecesse algo do gênero, comenta-se.
O
episódio reflete a desumanização e
deseducação do país em que o povo é apenas
massa de manobra. A PM é força auxiliar
das Forças Armadas e para todos os efeitos
os amotinados eram também seus
subordinados. Greve de polícia é proibida
por lei mas eles fazem.
O governo é de esquerda e não pode opor-se frontalmente a um movimento grevista. Por isso o governador da Bahia, Jacques Wagner, viajou para Cuba. De uma hora para outra a cidade entra em estado de sítio.
Greve da PM na Bahia não é uma greve
qualquer: a cidade fica sob estado de
assédio e de sítio imposto pelos grevistas
por uma semana. À paisana eles semeiam o
pânico onde decidam fazê-lo, com trabucões
nas mãos ordenando aos passageiros que
desçam do ônibus que mandaram parar.
- Tem que descer todo mundo! – em todos os
pontos.
Um
grevista grita ao celular em sonora
repetida vezes sem conta por rádio e TV e
nas redes sociais:
- Eu
vou queimar viaturas, eu vou queimar duas
carretas na Rio-Bahia.
- Fecha a BR! – responde o comandante.
Um vândalo à paisana aponta um trabucão
preto para o motorista do busu, que apoia
braços e cabeça ao volante enquanto as
pessoas saem. Uma jovem em êxtase ergue um
casco de cerveja e leva-o à boca. A cidade
em estado de sítio – bares vazios em noite
de sexta-feira na cidade turística.
Fala-se em chacina de moradores de rua em Salvador. Sem vigilância, os chefes de gangues aproveitam para limpar a sua cena com execuções sumárias. Entre os capangas, policiais (polícias) militares à paisana. Os crimes aumentam 75% em relação aos dias comuns – Salvador está em 13º lugar entre as cidades mais violentas do mundo. É obra feita pelo descalabro moral, porque há décadas a violência é explorada pelos governantes e pela mídia para direcionar os cuidados do povão para a violência que os assedia a cada hora e não para o que governantes e mídia fazem ou não de certo ou errado.
Numa
outra histórica greve da PM da Bahia em
2001, quando estava na oposição, o futuro
governador Jacques Wagner foi acusado de
se envolver diretamente no movimento. O
chefe dos grevistas igualados a criminosos
é o Soldado Prisco, ex-soldado dos
Bombeiros e presidente da Aspra, o
organismo representativo da classe dos
subalternos do efetivo. Um grevista
profissional e candidato a carreira
política.
Dito
e feito. Elegeu-se vereador, primeiro
degrau na escada do sucesso no mundo
político. A polícia brasileira mostra a
verdadeira face, a de uma instituição cuja
cultura é o desrespeito à lei e aos
direitos humanos, de transgressão de parte
a parte: polícia e bandido.
A
promiscuidade entre militares e os
desordeiros é de estarrecer. É uma prova
de que as Forças Armadas não escapam ao
modelo em curso.
- O
doloroso é sentir a fragilidade das
instituições brasileiras. O primeiro
governo Lula da Silva tinha um secretário
Nacional de Segurança, o cientista
político Luiz Eduardo Soares,
ex-secretário do governo de Anthony
Garothinho no Rio de Janeiro que se deu
mal com a experiência e teve de se exilar
em Nova York com a família com as vidas em
risco. Logo Soares ficou sem função e saiu
do governo e nunca mais se ouviu falar em
secretaria (com status de ministério) de
Segurança Pública, que pela Constituição é
responsabilidade dos governos estaduais. E
pelos vistos nunca mais se irá ouvir falar
de uma política articulada de segurança
pública no governo federal. Segurança
pública no Brasil é caso de polícia e um
vespeiro em que não dá para cutucar.
Consta que Soares ficou sem função por
ordem do chefe da Casa Civil da
presidência, José Dirceu.
O
principal candidato à presidência da
República pela oposição em 2014, Aécio
Neves, incluiu uma única menção ao tema em
no seu programa de governo com uma alusão
telegráfica a um “plano nacional de
segurança” que consistiria em levar
Unidades de Polícia Pacificadora (UPP, do
modelo do Rio de Janeiro), empregos,
educação, saúde a todo o país, enfim, mais
uma promessa vazia. Essa é a faceta mais
boçal do Brasil: nunca se sabe quem está
dentro ou fora da lei. Toda a questão da
violência está rodeada de uma cortina de
hipocrisia e cinismo porque é uma
ferramenta de controle social pela
manutenção do estado de alerta geral para
o que possa acontecer no próximo passo e
fica-se tão ocupado com isso e com os
atropelos da existência que, claro, não dá
para pensar no resto e o melhor é tomar
uma cervejinha ali no bar. No Rio de
Janeiro, o governador Sérgio Cabral, do
indefinível PMDB, como o prefeito Eduardo
Paz, não quis conversa, jogou duro,
prendeu os amotinados e cortou o mal pela
raiz.
É claro que também a polícia (militar) reflete o clima geral, sendo difícil saber quem entre os seus efetivos é incorruptível. Em princípio são todos corruptos. Mas é claro também que nem todos o são. Qual é o tamanho da “banda podre”, como se convencionou chamar à parcela “suja” da corporação, que é mais uma instituição a refletir o quadro geral da sociedade? Quem pode e não é do bem procura levar vantagem.
CABULAOutro
episódio emblemático relativo à
insegurança pública e ao extermínio de
população negra e favelada deu-se também
em Salvador, em fevereiro de 2015. Uma
patrulha reforçada das Rondas Especiais
(Rondesp) mata 12 jovens no bairro do
Cabula, região central da cidade, em um
local chamado Vila Moisés mas que para a
população é a Vila do Medo, Vila de um
Confins enCABULAdo. Salvadorlorida: Um
grupo de dúzia e meia de rapazes reúne-se
num terreno usado como boca de fumo (ponto
de venda de drogas). Segundo a polícia, o
grupo vinha sendo monitorado e
preparava-se para assaltar um banco. No
carro de um deles, segundo o destacamento,
foram encontrados armas, explosivos (para
detonar caixas eletrônicos) e 3,5 quilos
de maconha.
-
Quando a turma chegou no terreno, cerca de
30 policiais saíram do matagal. Todos
estavam com as mãos na cabeça e apenas
dois foram encontrados com um revólver
durante a revista. Uma parte foi obrigada
a ficar de joelhos. Em seguida começaram a
atirar. Alguns chamavam pelos parentes.
Dava para ouvir os choros, suplicando para
não morrerem – contou uma testemunha à
imprensa local. A reação imediata do
governador do estado, Rui Costa, foi de
apoio e defesa da ação dos PMs, que
comparou à de um centroavante frente ao
gol:
– Na
hora de fazer não pode hesitar – tem de
acertar.
Os
militares que participaram da ação alegam
que se depararam com mais um auto de
resistência – quando indivíduos abordados
reagem com armas de fogo à polícia
mas, contrariando o governador, grupos de
defesa dos direitos humanos disseram que
se tratou de mais um extermínio contra
PPPs – pretos pobres de periferia (que é
com o que mesmo bairros mais ou menos
centrais de Salvador também se parecem em
muitos trechos) baseado no costume da
polícia de atirar para matar até em casos
em que os oponentes estão rendidos e
desarmados. Mata. E depois diz que é
“criminoso” (nem mesmo suspeito
criminoso). Os laudos cadavéricos
demonstraram que os mortos foram
executados à queima roupa. Apenas dois dos
doze mortos tinham ficha de passagem pela
polícia. A Secretaria de Segurança e o
comando da corporação reagiram à acusação
das ONGs dizendo que o seu objetivo é
demonizar a PM.
Como
aqueles indivíduos se tornaram assaltantes
capacitados sem nunca terem passado pela
cadeia? – perguntaram às autoridades. - É
uma estratégia dos criminosos. Recrutam
menores de idade e pessoas sem “passagem
pela polícia” justamente com o objetivo de
confundir o trabalho de inteligência e
investigação.
–
Assim, tá tudo dominado. É tudo deles, do
crime, de que lado seja, nada nosso.
-
Cabula! – um grupo de delegados interrompe
aos gritos um discurso do exgovernador e
então ministro da Defesa Jacques Wagner
num Congresso do PT em Salvador.
26 de
julho de 2015 – Vem então o “recesso” do
Judiciário e, por motivo de férias do
titular, a juíza suplente pega no processo
e de uma penada (pernada de rasteira de
esporte favorito dos brasileiros, segundo
Graciliano Ramos?) em final de expediente
de sexta-feira absolve 10 e não só 9 PMs –
ou seja, absolve um a mais que os
arrolados como réus - acusados da chacina
do Cabula. A reação do governador Rui
Costa, que parece mais tenaz na cara de
pau que o “criador” Jacques Wagner, é
pejada do cinismo do comissariado e elenco
do governo federal a tudo o que o
contradiga e reage dizendo que queria
saber como a mídia soube logo da decisão
da juíza –, que tudo indica ter sido ação
combinada.
GUERRA
CIVIL
– No
mundo em conflito, Brasil poupado de
guerras – escreve Kátia Abreu, ruralista e
deputada em outubro de 2014.
Como
assim?
Um
fotógrafo brasileiro que trabalhou em
zonas de guerra parece concordar com ela:
- Sempre me incomodou o discurso de que o Brasil tem uma guerra civil não declarada. Depois de anos trabalhando em áreas de combate entendi que no país, apesar de todos os problemas que a violência causa, o conceito de guerra não pode ser usado. Só dá para comparar se pensarmos no número de mortes. O Brasil sofre de um quadro crônico de delinquência social que não coincide com as aspirações ou possibilidades do país. São o dobro de mortes diárias em relação aos atentados bombistas no Iraque.
PM, a
polícia militar de vigilância, e Polícia
Civil, a investigativa: todos da mesma
família: 25 de março de 2009/istoé:
corrupção rola solta – Um ex-adjunto do
Secretário de Segurança Pública de São
Paulo vendia cargo de delegado no interior
do estado por até 300 mil reais.
Delegado comanda quadrilha de milicianos: delegado de uma cidade a 295 km da capital do estado da Bahia preso em Salvador por chefiar quadrilha de milicianos com agentes da Polícia Civil em que estavam também envolvidos comerciantes e políticos.
Em
2012 a Dinamarca, em nome da ONU,
recomendou ao governo brasileiro a
extinção da PM. Diz o delegado Orlando
Zaccome, da Polícia Civil do Rio de
Janeiro:
- A
polícia militar é um oximoro. Ou é polícia
ou é militar. É importante termos em foco
a militarização da segurança pública no
Brasil, mas é bom também termos em foco a
policização das políticas de segurança. As
políticas de segurança ficaram
policizadas. Houve uma militarização da
segurança, desde o período da conciliação,
na passagem da ditadura para a
democratização. Foi negociada a inclusão
de um artigo na Constituição que garantia
às Forças Armadas o controle da ordem
interna. Essa foi a maneira como os
militares entenderam fazer essa passagem
de poder sem que eles perdessem todo o
poder.
Como
força auxiliar do Exército, a PM exerceu
também função repressiva durante a
ditadura militar. Estando ela identificada
com a repressão política e social, ao
assumir o governo do Rio de Janeiro após
as primeiras eleições livres para o cargo,
em 1982, contra a vontade das Organizações
Globo, Leonel Brizola proibiu-a de fazer
vigilância ostensiva nas favelas, o que
por sinal terá ao menos em parte
facilitado a expansão e consolidação do
poder das ditas “facções do crime
organizado”.
Se a
contabilidade local serve como amostra,
dos 50 mil homicídios cometidos a cada ano
no Brasil nesta década, segundo a
Secretaria de Segurança Pública da Bahia,
80% são ordenados das prisões, onde além
de todos os horrores a corrupção é de lei
e não faltam meios de comunicação com o
exterior. Narciso encarando piscina de
esgoto: entre estupros e chacinas ainda
queria ficar bem na fita. Muito errado:
discussão sobre violência no país é maior
que sobre educação e esporte.
O
Brasil é OURO em homicídios com um crime
de morte a cada 10 minutos. Segundo ONU, a
medalha de prata é da Índia. O país tem 3%
da população e 10% dos homicídios no
planeta, de 50 a 80 por dia, dependendo da
fonte: o mesmo número de homicídios na
Suécia em um ano.
8 de outubro de 2015 – No topo da
criminalidade: 66,5 mortes para cada 100
mil habitantes no Nordeste.
Alagoas:
76,3 homicídios por 100 mil habitantes - a
taxa mais alta do país. 2013: a violência
é a segunda causa mortis no país. Apenas
8% dos 50 mil homicídios registrados a
cada ano são esclarecidos.
Salvador é a campeã em homicídios em 2014 entre as capitais, com 10% do total. A polícia matou 11 pessoas por dia de 2009 a 2013. Total: 11 mil vítimas. Onde a polícia mata mais: Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador: 256 pessoas foram assassinadas em 2014 na Bahia, antiga terra da felicidade, em supostos confrontos com a polícia, segundo uma organização de direitos humanos.
Em
outubro de 2009 é lançada uma operação
para pacificar 49 favelas através da
instalação de Unidades de Polícia
Pacificadora da Polícia Militar, uma
contradição em termos. Entre 20 e 24
outubro de 2009 registram-se 33 mortes no
Rio de Janeiro na tentativa de invasão do
morro dos Macacos em Vila Isabel. Um
helicóptero da PM é abatido, o que chama a
atenção para o poder de fogo dos bandidos.
Mas com qualquer peteleco se abate um
helicóptero. Falemos de economia, volume
de negócios: o faturamento anual do
tráfico de entorpecentes é de 300 milhões
de reais e o lucro de 27 milhões. Em 2009
a taxa de homicídios no Brasil é de 27 por
100 mil habitantes, uma das mais altas – a
do Japão é de uma morte por 100 mil
habitantes.
Em
15 de março de 2010 o jogador de futebol
Wagner Love, atacante do Flamengo, repete
as aventuras de Adriano Imperador, o seu
antecessor na vaga, e vai a uma festa na
Rocinha escoltado por traficantes com
fuzil. Seis dias depois o governo do
estado implanta uma UPP no morro do
Livramento, no centro da cidade do Rio,
onde as favelas começaram a brotar entre
os séculos XIX e XX.
Cai a
seguir o Borel, quando as autoridades
repetem a promessa de que a UPP que ali
será instalada irá ser o posto avançado de
uma ação tendente a levar às favelas
serviços de que não desfrutam e que esse
será o elo de ligação entre o poder
constituído e a população nas 26 favelas
ocupadas em 2010, equivalentes a apenas 1%
do total de favelas da região
metropolitana, segundo Fernando Gabeira,
fundador do Partido Verde, em campanha
eleitoral para a Prefeitura carioca.
8 de
Novembro de 2010 – Operação da Polícia
Militar na Vila do Cruzeiro e 800 soldados
do Exército cercam o Complexo (de favelas)
do Alemão, de que aquela favela faz parte.
A ação é antecipada em relação aos planos
do governo, que decide responder a reações
dos traficantes ao avanço das UPPs. A
escolaridade média no morro do Alemão é de
cinco anos e os rendimentos dos
trabalhadores que ali residem equivalem a
menos de um terço do rendimento médio na
cidade.
26 de novembro – Guerra Urbana no Rio de Janeiro: Favela Vila do Cruzeiro, bairro da Penha, Complexo do Alemão – 43 mortos em cinco dias, 98 autocarros incendiados até aqui a mando de traficantes do Alemão que receberam abrigo na Rocinha e em São Gonçalo, região metropolitana da capital do estado.
A
“facção do narcotráfio” em ascensão
atualmente é a Amigos dos Amigos ADA.
O Globo 27 de novembro 2010 | manchete a
toda a largura da primeira página:
A guerra do Rio
Intenso tiroteio entre Exército e tráfico
abre Batalha do Alemão O governo anuncia
entretanto que até 2020 todas as favelas
serão urbanizadas, integrando-se à cidade.
2012
– 7 de março: é instalada a 19ª UPP desde
o início do ano, agora no morro do
Vidigal, que ficou famoso em todo o mundo
quando o papa João Paulo II ofereceu o seu
anel à comunidade. Com a instalação das
UPPs triplicam as áreas de risco em outras
regiões do Rio de Janeiro, para onde os
chamados narcotraficantes se transferem.
UPP
e comércio – Complexo do Alemão: 5367
negócios; 64% dos donos não vêm vantagem
em legalizá-los.
2013 – Complexo do Alemão e morro do Cruzeiro: mesmo com UPP tráfico ordena que comércio feche as portas.
13 de abril de 2014 – Exército ocupa favela da Maré, no Rio de Janeiro até depois da Copa do Mundo.
27
de maio de 2014 – UPP da Cidade de Deus é
atacada.
Maio
de 2014 – Na Rocinha, ocupada em 2012
antes da ocupação do Vidigal, já se
registram tiroteios constantes em “pontos
fixos”. Causou clamor – mas também não
passou disso – o desaparecimento de um
pedreiro morador da favela após ter sido
preso pela polícia e ao que tudo indica
por ela assassinado. Ataques a três UPPs
no Complexo do Alemão, na Penha, que
entretanto se transformara em ponto de
atração turística, que muitas favelas são
por natureza. 22 de abril de 2015 –
Soldados da UPP do morro de Dona Marta
procuram óculos da estátua em bronze de
Emijota, Michael Jackson, roubados da
atração turística inaugurada em 2010, um
ano após a morte do protagonista de They
don’t care about us no alto do morro
encantado. UPP x PPP (preto pobre de
periferia): UPPs serviram para expulsar
população das favelas – contas de luz hoje
chegam a 500 reais – Mães de Maio ainda
procuram filhos desaparecidos há 20, 30
anos. 7 de julho de 2015 – violência em
áreas de UPPs. Complexo do Alemão -
traficantes voltam com força total:
– O
resto não foi junto, o social não foi
junto, o saneamento não foi junto; onde em
aparência está pacificado, como o Vidigal,
é porque os traficantes deixam – comenta
um âncora de rádio. E traduz tudo. Por que
as UPPs não foram adiante? Ara – fala
Chico Bento, cria de Maurício de Sousa -,
porque não interessa.
Garoto vítima de bala perdida em Costa Barros, próximo a Madureira, e tu pode ser a próxima vítima de uma estatística. Um coroa (idoso) no interior da Bahia sai de casa curioso de ver quem está jogando tanta bomba de São João. Era um tiroteio. Morre vítima de bala perdida que o encontrou. Amargosa Revolta, Amargosa bangue-bangue, na mesma
|
LITERATIROS
a n o t a s s õ e s d e
v i a g e m p a r a u s
o e m r o t e i r o d
e d o c
como se vive em regime de guerra não declarada sem paralelo no mundocomo
numa guerra tribal – e sem dúvida entre (novas) tribos
sociais
|
revoluciomnibus.com série negra
Notícias do Tiroteio
o que é que de início se revela?
De repente, um burgo da montanhosa e bela Umbria
de Francisco de Assis.
Olhar mais atento a detalhe embaixo à esquerda
fará com que o navegador solitário pense que não, na Umbria não existirão
casas com paredes exteriores de tijolo aparente e menos ainda de tijolo
mesmo. Sim, não estamos na Umbria
![]()
.mas no Rio de Janeiro, Brasil.
A foto é o retrato falado do país e do seu futebol - do país do futebol, não é mesmo?
- legenda do jornal
Espaço democrático que não conhece limites sociais.
ou ao invés
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bandeira em silk-screen criada por Hélio Oiticica em 1968 partir de foto de Cara de Cavalo morto em suposto tiroteio com a polícia em 1964
incorporo a revolta
A prática eventual epidêmica da tortura de presos políticos e a prática permanente endêmica da tortura de detentos comuns. Waly Salomão, 1992
seja marginal seja herói
Aqui no Rio me esperavam surpresas incríveis. A primeira delas foi ver a beleza da raça brasileira em Ipanema. É a raça dos que comeram. Depois fui ver Caxias, fui ver Madureira; lá é outra raça, a dos que não comeram. A figura dos que não comeram, do povão, de um lado, e a beleza de Ipanema, do outro, é um tremendo contraste. A beleza de Ipanema está muito mais bela, as meninas e os rapazinhos, as tribos, são uma beleza. E as subtribos de Caxias, do Méier, estão mais terríveis ainda.
Darcy Ribeiro em debate promovido pelo Jornal do Brasil do Rio de Janeiro com Ferreira Gullar, Glauber Rocha e Mario Pedrosa em 1977, quando os quatro regressavam do exílio imposto a eles pela ditadura militar
foto Vilma Lobo Abreu - reprodução do Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1993/setembro/12
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urbanismo indiano
Tarun Dutt - O economista indiano que ajudou a reeguer Calcutá, a grande complicação urbana do Terceiro Mundo, com a quinta população urbana do planeta, um em cada três habitantes a morar num ambiente de densidade e sujeira que raras favelas brasileiras conhecem, como o Rio de Janeiro antiga capital de seu país, mostra as lições que os cariocas podem aprender com a cidade para melhorá-la
Provavelmente o Brasil se urbanizou demais e muito depressa
Na India, os governos comunistas investiram no campo, fazendo reforma agrária e distribuição de terras, construindo mercados rurais e redes de transporte
estancou-se o êxodo rural
urbanismo brasiliano
no Brasil espaço rural nunca existiu como Brasil ou outra coisa. Quem morava lá era servo. Os donos daquelas terra às vezes nem conheciam os seus domínios. Viviam de costas para eles, virados pro mar, para as Europa. Pro mundo, de todo modo looonge.
Não tinha domus lá e não o desenvolveu. Muito ao contrário e o oposto do americano, em que indivíduos, famílias, comunidades inteiras se transferiram para sempre conquistando ocupando chamando de seu tudo aquilo e desenvolvendo - à sua maneira.
EMIJOTA NA MUVUCA
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| Os
manu vão mi pegá manu - Diário do Acossado na
Toca do Lobo que é Louro
POR UMA BALADA DA PERDIDA |
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27 de março de 2003 O que tem a ver o Brasil e os brasileiros com as imagens do bombardeamento a Bagdá, outra capital mundial da violência? Eles mais uma vez constatam: a violência em suas maiores cidades chega a ser maior que a capital do antigo califado das mil e uma noites. Até porque onde vivem nunca se sabe se alguma vez se será morto ou ferido, nem porquê nem por quem. Não há nenhuma guerra declarada ou a declarar., nenhum exército inimigo nas redondezas, nenhum motivo aparente para morrer de susto de bala ou grito. Não há por que temer ser morto ou ferido por uma bala perdida ou de fogo cruzado entre soldados do 7. de Cavalaria e fedayns. Mas os noticiários estão pejados de informes sobre sub metralha doras e granadas usadas pelos soldados do tráfico, que têm tanto ou mais intimidade com elas que os parentes dos fedayns. O Brasil não tem nada e para os habitantes de cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Vitória do Espírito Santo tem tudo a ver com o choque-e-espanto bélico médioriental. Vai receber pelo menos menos 2 dos 17 bilhões de dólares que deveria receber este ano em investimentos diretos, diz o governo ao refazer as contas. E vai perder muito mais que isso. O seu presidente ex-metalúrgico pode até perder o cargo se insistir na política recessiva a que se diz estar obrigado por herança do governo anterior e por sua vez obrigar os brasileiros a conviver com números crescentes de desempregados subalimentados, maltrapilhos e malcriados a formar uma horda de assassinos potenciais mais os seus filhos, que sem outros recursos irão engrossar o exército do narcotráfico e outras delinquências muito bem armadas. Onde mais no mundo um exército juvenil ostenta sub metralha doras contrabandeadas e granadas e outros engenhos de uso exclusivo das Forças Armadas, cometendo assaltos sequestros e até atentados contra juízes (¿nova Cosa Nostra? ¿nova Camorra? !¿ nova Sodoma &Gomorra ?!) E ainda há quem diga que não há no mundo lugar como este aqui, sem furacões, terremotos e guerras. Quem fala assim é porque não é favelado ou mora em cercanias de uma favela e não tem nenhum parente no tráfico ou que foi assaltado, morto ou ferido - centenas deles por fim-de-semana, dezenas no Rio e em São Paulo, todos os dias. Traços luminosos de projéteis em curva de cá para lá de lá para cá na geometria de tiroteios entre guangues de facções criminosas rivais, medo constante de que quem te aborda te violente de algum modo, morre-se mais nas cidades brasileiras que no Vietnã, na Bósnia ou no Iraque, do Curdistão a Bassora e Umm Qasr, crescente fértil, mesopotâmia da coca refinada, reprocessada e misturada a tudo o que é sorte de produto - esses ainda mais - maléficos. Já se viu até explosões de bombas - onde é que isso vai parar? Aqui sim parece o final dos tempos num apocalipse sem nenhum pretexto, sequer fictício, ou pior: porque não se distribui renda ou nunca se discutiu essa droga da questão das drogas a não ser sob o prisma da hipocrisia. O que há muito se temia aconteceu, de forma diferente? o morro desceu para o asfalto e a violência que dele emana é uma outra forma de revolta. Cega e ignara. Só em Bagdá se disputa partidas de futebol entre bombas? Aláa! Aláa! Viu a bala lá? Que papelão. De araque.
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Os manu vão mi pegá manu - Diário do
Acossado na Toca do Lobo que é
Louro
ALI BABUSH CONTRA OSAMA BINLADA |
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de 27 de março de 2003 a 06 de junho de 2004 Não é esta a Bagdá dos sonhos das mil e uma noites. O poço também não é o dos desejos de Aladim. A flauta não encanta serpentes. Atiça-as para a picada fatal. A poção mágica não está no copo. O veneno está num poço e é exaurido até a última gota para matar. Ali Babá é Ali Babush, o pretenso novo emir. Os cowboys do petróleo texanos são os 40 ladrões. Os guerrilheiros de Alá, diz a CNN, são terroristas. Sherazade é a soberba do poder absoluto que semeia o pânico e o terror. Babilônia é a mátria das línguas inaudíveis. por uma bala perdida choque-e-espanto !¿ nova Sodoma &Gomorra !¿ Traços luminosos de projéteis em curva de cá para lá de lá para cá na geometria de tiroteios entre guangues de facções criminosas rivais, medo constante de que quem te aborda te violente de algum modo, morre-se mais nas cidades brasileiras que no Vietnã, na Bósnia ou no Iraque, do Curdistão a Bassora e Umm Qasr, crescente fértil, mesopotâmia da coca refinada, reprocessada e misturada a tudo o que é sorte de produto - esses ainda mais - maléficos. Já se viu até explosões de bombas - onde é que isso vai parar? Aqui sim parece o final dos tempos num apocalipse sem nenhum pretexto, sequer fictício, ou pior: porque não se distribui renda ou nunca se discutiu essa droga da questão das drogas a não ser sob o prisma da hipocrisia. O que há muito se temia aconteceu, de forma diferente? o morro desceu para o asfalto e a violência que dele emana é uma outra forma de revolta. Cega e ignara. Só em Bagdá se disputa partidas de futebol entre bombas? Aláa! Aláa! Viu a bala lá? |

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FAVELIZAÇÃO
NEOMEDIEVALIZAÇÃO URBANÍSTICA
EM BARBÁRIE
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Vélo do Brasil - Le documentaire - Un film de Alexis Monchovet, Raphaël Krafft, Christophe Bouquet
(2014)
a favela do Vidigal, onde o Papa Karol Woytilla deixou um caxuxo em 1982, quando ela já ocupava toda a encosta da avenida Oscar Niemeyer
vista com zoom e blow uptours pelas favelas
o guitarrista do Living Colour, Vernon Reid, que esteve no Morro do Vidigal durante o Hollywood Rock
agência de Ipanema lança no mercado turístico um programa de visita ao Morro do Vidigal
Debruçada sobre o mar e com uma das vistas mais bonitas do Rio, a comunidade do Vidigal, povoada por 40 000 habitantes
o passeio anunciado como "uma aventura por entre os casebres coloridos, habitados por uma população afável, ao som de música dançante"
inusitado programa, que custa 34 dólares,
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a partir de foto de Vilma Lobo Abreu - reprodução do Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1993/setembro/12
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