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Noite de 24 para 25 de Abril, de serviço entre dez da noite e uma da manhã, quando mais uma ‘manha’ dos noticiaristas – ou só de alguns, que entre os que trabalham no RCP e na RR costumam dividir os noticiários em dois blocos, entre a inserção do spot Beba Sagres, a sede que se deseja, um com informações pontuais de factos de política internacional (nacional, porque censuradas, ou apenas de cunho promocional-propagandístico, quase não se dá) e, antes ou depois, assuntos de algum modo associáveis à ordem política e social portuguesa, mesmo que, como em relação ao Caso Watergate, não directamente conotáveis/conectáveis, quase sempre o que a censura deixa passar de acontecimentos noutros países sob ditadura, como Chile, Grécia, Espanha e Brasil - já foi descoberta pelos ‘peritos’ da censura. Descoberto o estratagema, os censores fazem saber ao chefe do Serviço que passarão a embaralhar as notícias. Num jantar com Antônio Edgar decide que se é assim o melhor é dar as mesmas notícias ao longo de todos os períodos em que trabalhar. Por acordo tácito entre a meia dúzia de noticiaristas dos quadros da RR as notícias oficiais e oficiosas da vida política portuguesa – pronunciamentos do primeiro-ministro Marcelo Caetano ou corta-fitas de Thomaz - são dadas apenas no jornal do meio-dia e meia pelo mesmo jornalista, a quem o expediente cai como uma luva. Além da rádio, o referido sr. – de longe o mais velho da turma – trabalha também num matutino e na RTP, realizando a façanha – ao que se diz pelas costas, porque tem de sustentar duas famílias... – graças ao famoso recurso muito comum nas repartições de deixar casacos nas costas das cadeiras. O trabalho do turno na RR acaba por tomar-lhe apenas uma hora – porque nada do que veicula importa realmente.
Ed escreve o seu primeiro e único noticiário porque após
três meses de preparativos finalmente começa a funcionar o
serviço oficial de censura interna, que neste período
inaugural de corta-fitas cabe ao próprio chefe dos
esbirros, que o endossa já ‘embaralhado’. Lè-o às onze
horas e à meia-noite. Sem mais o que fazer, até porque a
cena passa-se não ao lado do seu gabinete mas em plena
parte da sala reservada aos noticiaristas, põe-se a
acompanhar uma arenga do censor, muito altivo e cheio da
garra de quem começa trabalho novo, ao director comercial
da emissora, Albérico Fernandes, que exerce também as
funções de conselheiro informal dos profissionais,
jornalistas e produtores e realizadores de programas da
casa ou independentes, sobre esses assuntos, ou seja, é o
censor interno informal. Nota que, contra o que é hábito,
desde o início da emissão, à meia-noite, o programa Limite,
cujos produtores e realizadores, entre os quais Leite
Vasconcelos – também da equipa de noticiaristas – e Carlos
Albuquerque, oriundos de Moçambique, são criticados pelos
poucos radialistas do contra por se terem prestado a
substituir um programa proibido e pelo conteúdo anódino
das suas emissões, que vão ao ar há pouco mais de dois
anos, está a passar apenas faixas da chamada ‘nova música
portuguesa’, por sinal da melhor, e quando lá para a
meia-noite e um quarto entra o tema da Gare d’Austerlitz
de José Mário Branco, o censor, qual João Metralha, está a
disparar uma saraivada de balas sobre os princípios que
irão nortear o seu trabalho e o método a adoptar, face a
um – só a modos de dizer – interlocutor impossibilitado de
emitir sequer um balbucio, estático, de braços cruzados até que entram os passos no saibro do pátio do Château de Herrouville, em França, incluídos pelo mesmo José Mário Branco no início da versão de José Afonso de Grândola, Vila Morena. |
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